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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Memórias - Frida Kahlo

Fonte: Google - philia.zip.net



Fonte: Google - eraumavezmoda.blogspot.com

 
Frida e Diego Rivera (Google)
 Fonte: blog.photography.si.edu

FRIDA KAHLOMéxico (Coyoacán) - 1907/1954


Please see below/ S'il vous plaît voir ci-dessous/ Por favor, ver más abajo /


Si prega di vedere sotto.

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Frida Kahlo, (Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón) - uma vida marcada pela tragédia e cujos célebres autorretratos refletem a dor e a angústia que foram uma constante em toda a sua existência. Contudo, as suas pinturas contêm algo de esperançoso, como que um apelo à vida, pela exuberância de cores que quase aniquilam o sur(realismo) doloroso da sua arte, que a representa a ela, Frida, a humana martirizada por um deus cruel.

De uma beleza exótica, Frida apanhara poliemielite na infância e na adolescência sofrera um acidente de elétrico que a deixara paralizada, tendo-lhe sido mais tarde amputada uma perna. Uma barra de ferro rasgara-lhe o ventre, saindo-lhe pela vagina, facto que tornou infrutíferas as suas gravidezes. E essa fora a sua maior dor, representada em alguns dos seus quadros.

A vida, às vezes, surge-nos com provações que nos obrigam a ser heróis. E ela tornara-se uma heroína, que em vez de se afundar no seu infortúnio emergira de forma a assombrar o mundo. A pintura foi a sua prancha; a arte levou-a a alcançar o horizonte de uma forma que jamais havia imaginado. Tolhida pela paraplegia, Frida jazia na sua cama, imobilizada e desesperançada, pincelando a sua tela; então descobrira-se nessa angústia, e renascera, dando a conhecer ao mundo a sua alma atormentada, que desperta ainda as nossas mais sentidas emoções.

O seu grande amor, Diogo Rivera, com quem se casara, oferecera-lhe uma vida de insegurança emocional e infidelidades, tendo-a atraiçoado com a sua própria irmã, facto que a levou a uma das várias separações que fizeram parte desse relacionamento tempestuoso que tem inspirado escritores, cineastas, dramaturgos e artistas diversos em vários continentes.

Por outro lado, Frida, nos raros momentos em que a dor física não a imobilizava, embrenhava-se desenfreadamente em amores ilícitos, sendo alguns deles com figuras célebres, ostentando a sua bissexualidade, talvez por pura vingança, para punir Diogo; Diogo que a matava por dentro, que a feria, que a amava e desamava, tornando-a dependente e confusa – porém, como se afastar do seu ídolo?

Diogo Rivera tornara-se um ícone internacional ao criar o movimento muralístico mexicano, tendo pintado milhares de quadros, desenhos e grandiosos murais que retratam a vida do seu povo, num contexto político e emocional e, obviamente, destacando nas suas pinturas o elemento feminino, expressando assim a sua paixão pelas mulheres.

Também pintara Frida, que se apaixonara pela sua arte e pela sua postura de vida quando ainda era uma jovem e sonhadora estudante. Diego, tal como ela, era um revolucionário e um artista. Tal como ele, Frida exibia a sua ideologia sem medo. Era assumidamente comunista e alguns dos seus quadros demonstram claramente a sua posição. Ela e Diego foram duas almas desencontradas, cuja união intricada perdurara até à morte de Frida, aos 47 anos de idade.

Frida deixa-nos a sua Arte, espalhada pelos cantos do mundo, o seu Diário, a sua ‘Casa Azul’ transformada em Museu e, acima de tudo, deixa-nos a sua vida.

Maria Dhramamor
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INFORMAÇÃO/ INFORMATION/ INFORMACIÓN/ INFORMAZIONI

http://www.diegorivera.com/
http://www.google.pt.wikipedia.org/wiki/frida_kahlo

ENGLISH – Mexican painter, known around the world for self-portraits and married to Diego Rivera, one of the icons of Mexican painting.

FRANÇAIS – Peintre mexicaine, connue dans le monde entier pour les autoportraits et mariée à Diego Rivera, l'une des icônes de la peinture mexicaine.

ESPAÑOL – Pintora mexicana, conocida en todo el mundo por sus auto-retratos y se casó con Diego Rivera, uno de los iconos de la pintura mexicana.

ITALIANO – Pittrice messicana, conosciuta in tutto il mondo per l'auto-ritratti e sposata con Diego Rivera, icone della pittura messicana.

Maria Dhramamor

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Música - SUZIE'S VELVET

Imagem: atrama.blogspot.com


Track 16 - Suzie's Velvet ao vivo :: Concertos Central Musical
(clicar para ouvir)


Please see below/ S'il vous plaît voir ci-dessous/ Por favor, ver más abajo /Si prega di vedere sotto.

Inês Sousa, uma voz de veludo que nos afaga suavemente, que nos amacia a alma e nos faz sentir puros objetos de desejo, sedentos  de   vida.        
Psssssst!, Estou arrepiada! 
   
Os SUZIE'S VELVET iniciaram os seus concertos em ambientes algarvios, mas atualmente percorrem o país, encantando com o seu estilo Jazz Cabaret. Os sons enérgicos dos instrumentos ecoam de forma harmoniosa a par com as vozes de Inês Sousa e Margarida Campelo (coro). Evidenciam uma forte influência das The Andrew Sisters (1937-1953), com cambiantes de swing e boogie-woogie, e blues em atmosfera de Cabaret. Artistas como Bette Midler e Christina Aguilera também experimentaram influências deste trio de irmãs, oriundo de Minnesota (EUA).

A sua participação no Festival Internacional Douro Jazz (Centro Cultural de Chaves, Teatro Ribeiro Conceição - Lamego, Café-Concerto Teatro de Vila Real), Festas de Carcavelos, Bar Onda Jazz (Lisboa), entre outras, tem sido um êxito para o grupo e um deleite para o público.

Quem é Quem

Inês de Sousa (voz), Bruno Pernadas (guitarra e banjo), Gonçalo Leonardo (contrabaixo) Margarida Campelo (piano e coros), Joca ‘João Correia’ (bateria).

P.S.: Não se esqueça de consultar a agenda de Concertos dos SUZIE'S VELVET.


INFORMAÇÃO/ INFORMATION/ INFORMACIÓN/ INFORMAZIONI

STRATOSFEAR OFFICIAL STORE

ENGLISH - Portuguese band music (Jazz Cabaret) - Variety of blues, swing, boogie-woogie - influences of the ‘The Andrew Sisters’. - And the wonderful voice of Ines de Sousa.

FRANÇAIS - Groupe de musique portugaise (Jazz Cabaret) - variété de blues, swing, boogie-woogie - influences des ‘The Andrew Sisters’. - Et la voix merveilleuse de Ines de Sousa.

ESPAÑOL – Grupo Portugués de música (Jazz Cabaret) - variedad de blues, swing, boogie-woogie - Influencias del trío ‘The Andrew Sisters’. - Y la maravillosa voz de Inés de Sousa.

ITALIANO – Banda portoghese (Jazz Cabaret) - varietà di blues, swing, boogie-woogie - influenze dei 'The Andrew Sisters'. - E la splendida voce di Ines de Sousa.

Maria Dhramamor

CREPÚSCULO - Maria Dhramamor

Já as *cafecos enfeitaram seus seios

de ébano
e
banharam seus corpos no rio
azul.

Já os caçadores voltaram do capinzal
e
historiaram seus encontros com os
bichos
e
com as almas perdidas,
e
trouxeram tecidos e sal
de longes tribos,
e
trouxeram conversas vindas
de conversas
de outras gentes
ausentes.

Já o último *tchindere
fechara o boteco,
e
só eu, meus seios
não enfeitei,
e
só eu, no rio
não me banhei.

Já a última chama da fogueira
esmorecia
quando tu chegaste,
e
meus seios enfeitaste,
e
juntos nos banhámos no rio
azul.

Maria Dhramamor
Março/ 2009
*Cafecos – adolescentes; virgens.
*Tchindere – homem branco, patrão.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Informação - F. CRISTAL


‘Fragmentos de Cristal’, publicado pela editora brasileira Freitas Bastos já se encontra à venda (formato digital), em diversos sites.

Para compra ou consulta deverá entrar no site em questão, pesquisar em ‘e-books’ ou ‘e-pub’, procurar em MARIA DHRAMAMOR ou FRAGMENTOS DE CRISTAL e seguir as instruções.

Onde adquirir:

EDITORA FREITAS BASTOS
www.freitasbastos.com.br

GATO SABIDO (E-bookstore)
http://www.gatosabido.com.br/

PONTO FRIO (Comércio Electrónico)
http://www.pontofrio.com.br/   (lista dos mais populares e mais vendidos)

EXTRA.COM (Loja electrónica associada aos hipermercado Pão de Açucar)

GRIOTI (Livros digitais)
(seleccionar e-pub)

Maria Dhramamor

domingo, 7 de novembro de 2010

Memórias - Josephine Baker

 
Fonte: Youtube


Josephine Baker (1906-1975) – EUA. Dançarina. Atriz. Cantora. Espia. Ativista. Mãe.

Josephine Baker nasceu a 3 de Junho de 1906 em Saint Louis, Missouri, com o nome de Frida Josephine Mcdonald. Foi a primeira artista negra a iniciar uma carreira internacional como cantora e como estrela de cartaz de cinema.

Filha da miséria, como a maioria dos negros nos EUA, na altura, viveu momentos pungentes, tentando sobreviver numa sociedade hostil em que gente da sua raça era menos do que nada. Símbolo indubitável de complexa miscigenação, nas veias corria-lhe o sangue de um pai desconhecido, supostamente branco, dos escravos negros e dos índios Apalaches. Nas ruas empoeiradas do Harlem, Josephine cantava e dançava descalça, sendo, desde cedo, motivo de atração. Com 8 anos, para ajudar a família, trabalhava como lavadeira em troca de muito pouco, enquanto seus dedos se rasgavam com o trabalho duro. Um dia, queimaram-lhe as pequenas mãos, culpando-a de não poupar o sabão que usava. Ostracizada, maltratada, sofrida, não desistiu. Procurava um lugar ao sol, mas o sol quando nasce não é para todos, pior ainda, quando se vive num país onde é crime ser-se negro.

Aos 13 anos, Josephine abandona a casa dos pais e integra um grupo de dançarinos de rua, a ‘Jones Family Band’, tendo-se casado com Willie Wells. O casamento pouco durou, e ela volta a Saint Louis e estreia no ‘Teatro de Washington Booker’ e no ‘Cotton Clube’, casas de espetáculos de negros. Dois anos depois, aos 15 anos, casa-se com William Baker, tendo herdado o seu apelido.

Entretanto, o racismo existente agravava-se com a violência da Ku Klux Klan, grupo constituído na sua maioria por brancos protestantes, que atingia cerca de 4 milhões de membros e atuava em linchamentos de negros, imigrantes asiáticos, católicos e judeus, tentando impedir a sua integração. Em Saint Louis, tal como em outras partes do Sul da América, executavam-se milhares de afro-americanos. Esgotada, Josephine Baker separa-se de William Baker e parte para Nova York, inserida num Musical negro da Broadway (1922). As suas habilidades artísticas são notórias e Caroline Regan, sua produtora, envia-a para Paris. Decorria o ano de 1925, Josephine Baker tinha 19 anos, que ficaram marcados pela sua estrondosa estreia no 'Théâtre des Champes-Elysées', em La Revue Négre. Não voltou para Nova York, pois, no ano seguinte, já era estrela na 'Folies Bergères' e no 'Casino de Paris'.

O espetáculo 'The Banana Dance' projeta-a irreversivelmente para a fama, ao atuar completamente nua, ostentando apenas uma saia de bananas, numa dança tribal plena de sensualidade e erotismo, dando início a uma gloriosa carreira. Josephine dançava com uma alegria exuberante, expressando audaciosamente a sua sexualidade numa mescla de requebros que trazem ao palco a sua herança cultural numa fusão de Jazz, Twist, Hip-hop, Breakdance e Charleston. O seu corpo expressa-se contorcendo-se, acompanhando os gestos com caretas faciais, arregalando os olhos, revirando-os, numa autêntica mostra de liberdade, expondo-se como um objeto de arte, seduzindo o público de forma atroz. 'The Banana Dance' abriu-lhe as portas a uma carreira que se prolongaria até ao resto da sua vida, enquanto a sua voz melodiosa era comparada à 'voz dos pássaros'. Nascera uma Diva.

Josephine torna-se uma mulher exuberante e sofisticada com o seu estilo próprio, caracterizado pelo cabelo curto e escorrido, os lábios grossos pintados de carmim, os olhos delineados, aumentando-lhe o brilho e o fogo sensual. A Europa vibra, os media agitam-se, e o poder da rainha aumenta. Milionária e poderosa, ela deixa de ter medo e o mundo passa a ser um desafio. Dá-se ao luxo de passear pelas ruas exibindo as suas extravagâncias, acompanhada pelo seu leopardo. É amada por homens e mulheres e transforma-se num padrão da moda.

No entanto, mesmo numa Paris aberta, os seus espetáculos causam protestos. Mas, que importava? Josephine Baker transformara-se numa das maiores estrelas do mundo e no símbolo da liberdade e da sensualidade, num tributo às suas raízes. Paris estava aos seus pés. E alcançara finalmente a liberdade que procurava.

Como viria a afirmar mais tarde, já no auge da fama, numa entrevista para a TV americana, era uma lutadora, abandonara St. Louis e partira para a Europa à procura da liberdade para aplacar o sentimento de inferioridade que sempre sentira, imputado pela supremacia branca.

Entretanto, os corredores de Paris fervilhavam de artistas e escritores de todo o mundo. A arte era suprema. O artista, idolatrado. Figuras como Pablo Neruda, Heminguay, Jean Cocteau, Le Corbusier, Léger, Alexander Calder, Christian Dior, entre outros, exaltavam a sua beleza exótica.

Em 1927 era a mulher mais fotografada do mundo. Para além da sua fama nas salas de espetáculos, o cinema projetou-a ainda mais alto com os filmes 'Zou-Zou' e 'Princess Tam-Tam'.

Em 1929 passa pelo Brasil, pela primeira vez, no 'Teatro Cassino', no Rio de Janeiro. O Brasil recebe-a de braços abertos e ela volta em anos seguintes a atuar em salas de espetáculo como o 'Copacabana Palace' e o 'Teatro Record'.

Em 1936 volta aos EUA cantando e dançando no 'Ziegfield Follies', mas o público rejeita-a com o seu racismo. A sua fama espalha-se por toda a Europa e Berlim acolhe-a com pompa e circunstância. Divide a sua vida entre os palcos de Berlim e Paris, mas o nazismo espalha os seus tentáculos e é de novo atingida pela discriminação. É vaiada em espetáculos e alguns jornais publicam títulos insultuosos à cor da sua pele. É acusada de atentado contra a moral, e durante as suas atuações são celebradas missas para afastar o mal que ela representa. Dececionada, regressa definitivamente a Paris.

Durante a segunda guerra mundial Josephine teve um forte papel na Resistência, como espia, tendo sido altamente condecorada pelo presidente Charles de Gaulle, com a Medalha e a Cruz de Guerra da Resistência, e a Medalha da Legião de Honra. Foi ainda membro activo da Cruz Vermelha Francesa e auxiliar da Força Aérea, tendo permanecido em Marrocos, de 1940 a 1944, desempenhando um papel fulcral no apoio às tropas francesas. Também se regista a sua passagem por Portugal nas suas actividades de espionagem, a favor da Resistência.

Após a guerra, Josephine está cansada e precisa desesperadamente de uma família. Em 1950 inicia a sua ‘Tribo Arco Iris’, adotando 12 crianças de várias raças e países, que cria no seu castelo, em França, sendo este ato um declarado protesto contra a segregação racial. Perante a sua falência, vê-se sem casa e em vias de perder a custódia dos seus filhos adotivos. A princesa Grace de Mónaco apoia-a, oferecendo-lhe uma vila em Mónaco, para onde se mudam.

Em 1951 aceita o convite para espetáculos em Nova York e é recebida por milhares e milhares de americanos, apinhando as ruas. Continuam a existir salas de espetáculos de negros, mas só para brancos, ou segregados. Josephine insurge-se recusando atuar em locais como esses. Exige que negros e brancos se sentem lado a lado e manifesta-se contra o racismo, em discursos polémicos. É acusada de comunismo e de simpatias fascistas. Num restaurante célebre, Josephine é expulsa, e Grace kelly, que se encontrava presente, alia-se a ela e saem de braço dado, num gesto de protesto. Apesar da fama, continuava a ser impedida de entrar em locais para brancos. Foi a gota de água. Amargurada, deixa os EUA e volta para Paris que sempre a acarinhara. Casa-se com Jean Lion e adota a nacionalidade francesa.

Em 1960 desloca-se a Portugal, a convite da RTP, 'Estúdios Lumiar', para participar num programa de vedetas internacionais. Diretamente de Paris, Josephine surge plena de glamour, entre plumas e brilhos. Abre o espetáculo cantando ‘Paris Mês Amours’, espalhando o encanto da França moderna. Sabendo da situação das colónias portuguesas, e como activista na Liga Internacional contra o Racismo e o Anti-semitismo, traz no seu repertório uma canção composta em 1943, pelo compositor brasileiro Ary Barroso 'Terre Sèche', pura intervenção política, e profere algumas frases que evidenciam a sua luta pelos direitos civis. Estranhamente, a Censura não interfere. De qualquer modo, a sua mensagem não é compreendida pelo grande público português porque o programa não está legendado.

Já antes havia sido apanhada a circular nas ruas de Lisboa quando o paquete em que viajava aportara em Lisboa. Apesar de camuflada, fora reconhecida por alguns jornalistas, que fizeram efusivos elogios à ‘Deusa de Ébano’, ‘Vénus Negra’ como era conhecida, ou o ‘Demónio Dançante’ como foi cognominada por um jornal nacional.

Dando continuidade à sua luta, Josephine alia-se ao trabalho de Martin Luther King na luta pelos direitos civis dos negros e mestiços de todo o mundo.

A sua vida foi intensa, somam-se as paixões em todos os seus aspetos, nomeadamente pelos homens, resultando em 6 casamentos com figuras do panorama nacional e internacional como o Conde Pepito de Abatini, Jean Lion, Joe Bouillon, Robert Braddy.

Só em 1973 Josephine foi recebida nos EUA por um público multirracial, atuando no 'New York´s Carnegie Hall'.

Em 8 de Abril de 1975, Josephine atua pela última vez no 'Teatro Bobino de Paris' e a 12 de Abril morre, aos 68 anos, em Paris, com uma hemorragia cerebral. Robert Braddy, seu último marido, permanecera ao seu lado até ao último sopro da sua vida. O seu funeral decorreu na presença de milhares de pessoas, com honras militares do Estado Francês, e o seu corpo repousa no cemitério de Mónaco, em Monte Carlo.

Com o seu racismo desenfreado, a America rejeitara um ícone mundial que alterou profundamente a concepção artística, dando-lhe uma vasta dimensão, num mundo limitado por preconceitos.

Josephine Baker deixa-nos um legado único, e por mais que tentem copiar-lhe os gestos, o seu talento e a sua sensualidade, será sempre única. Ela foi Arte, ela foi Humana, ela foi Universal.

Maria Dhramamor

Fonte
Youtube – vídeos – Chasing a Rainbow: The Life of Josephine Baker (consultado em 2010.05.27)
Wikipédia – http://en.wikipedia.org/wiki/josephine_baker (consultado em 2010.05.27)
www.blittz.aeiou.pt – Josephine Baker em Portugal (consultado em 2010.05.28)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

ILUSÃO - Maria Dhramamor

Ilusão,
quando tuas palavras roucas
me dizem poemas
que a outras disseste
com a mesma entoação,
vírgulas, pontos, rimas,
a mesma encenação…
Ilusão,
quando tua espada
me rasga ao meio,
tua boca
me suga o seio,
e soltas uma frase de amor
desbotada.
Ilusão,
quando me cobres
com fitas de cetim
os olhos,
para esconderes de mim
uma traição.
É por isso, meu amor,
que minha boca ardente
te beija enraivecida,
pela dor pungente
que me causas.

Novembro/2010

Letras: Chimamanda Ngozi Adichie

 Sequência do brilhante discurso de Chimamanda Adichie.
Fonte: Youtube (video on TED.com)

Chimamanda Ngozi Adichie, escritora. Nasceu na Nigéria, em 1977.

Por detrás da beleza exótica existe uma mulher inteligente, dinâmica, que seduz com a sua escrita comovente e de indubitável qualidade, refletindo nos seus poemas, contos e romances, o calvário do seu povo, vítima de conflitos étnicos, religiosos e culturais e as dificuldades da imigração na Europa e Estados Unidos; e relembra o holocausto que foi o extinto Biafra (sudeste da Nigéria, 1967-1970), anos antes do seu nascimento. Contudo, as suas histórias plangentes são plenas de criatividade e nostálgica beleza.
Em público, Chimamanda Adichie é simplesmente deslumbrante pela sua capacidade discursiva.

A residir nos Estados Unidos desde os 19 anos, onde obteve dois mestrados, respetivamente em Escrita Criativa (Universidade de Johns Hopkins - Baltimore) e em Estudos Africanos (Universidade de Yale), é uma forte referência no panorama internacional, pois a sua obra encontra-se traduzida em mais de trinta idiomas, sendo detentora de várias distinções e prémios literários.

A sua projecção teve início em 2002 com a publicação dos seus contos, que lhe valeram o galardão da BBC Short Story Competition, e em 2003 o Henry Short Story Prize.

Em 2004, A Cor do Hibisco, seu primeiro romance, foi distinguido com o Hurston/Wright Legacy Award, o Orange Broadband Prize e nomeado para o Man Booker Prize. Em 2005 ganhou o Commonwealth Writer’s Prize. O Segundo romance, Meio Sol Amarelo venceu em 2007 o Orange Broadband Prize, o Anisfield-Wolf Book Award, e o PEN ‘Beyond Margins Award.

Ambos os romances foram editados em Portugal pela editora ASA.

Esta talentosa escritora foi ainda distinguida com o Future Award na categoria de Jovem do Ano, em 2008 e uma bolsa da MacArthur Foundation, atribuída a ‘génios’ da literatura.

Com outros romances recentemente publicados, figura no 'The New Yorkers 20 under 40', concurso promovido pelo The New Yorker (um dos mais reputados jornais americanos), entre os 20 melhores jovens autores seleccionados por uma conceituada equipa de peritos no mundo das artes, das letras e das ciências.

Atualmente vive entre os Estados Unidos e a Nigéria, colaborando com o seu país no âmbito cultural.

Maria Dhramamor

Fonte:
The Chimamanda Ngozi Adichie Website
www.wook.pt./autores
The New Yorker – November 3, 2010
http://www.missioni-africane.org/

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Memórias - Florbela Espanca

Fonte: Youtube
Guarde estas imagens na sua memória e... Escute! Quem melhor que Eunice Munõz, a adorada senhora do Teatro, para recordar Florbela Espanca?


FLORBELA ESPANCA (1894-1930) – Vila Viçosa (Alentejo) - Portugal

Uma Borboleta no Escuro

Ser mulher não é fácil, nunca foi fácil, muito menos numa sociedade hostil a todos os indícios de autonomia da mulher, fatalmente subjugada ao elemento masculino. Uma sociedade em que a submissão do feminino era incontestável e o casamento fundamental para a procriação da espécie humana. Decorria o ano de 1894 quando Flor Bela de Almada Conceição nascera, contra todas as regras estabelecidas por homens, assimiladas e padronizadas pela sociedade global, incluindo, obviamente, a espécie subalternizada (a mulher). Não havia absolvição pelo pecado do seu nascimento. Florbela, a bastarda, nascera culpada da sua condição e vivera a sua existência estigmatizada pelo meio austero e preconceituoso em que vivia, convertendo-se numa alma sedenta de amor, e plena de dor e fúria, – graciosa borboleta perdida no escuro.

Antes dos 10 anos escreve o seu primeiro poema ‘Vida e Morte’, revelando o seu âmago tumultuoso de menina, cujo desassossego se prolongará por toda a sua vida. Condenada pela sociedade pela sua ilegitimidade, Florbela arrasta três divórcios, que a desvirtuam ainda mais.

A sua poesia retrata o amor voluptuoso, triste e solitário e é uma súplica à sua própria vida desencantada; sua alma, uma mescla de sentimentos desencontrados que resultam da sua natureza delicada e trágica. A sua escrita despoletou críticas arrasadoras pela sua frontalidade, pela sua essência desnuda, simples, e ao mesmo tempo complexa.

A morte parece seduzi-la não só de forma lírica. Sua mãe, que sofria de neurose, deixa-a órfã na infância e já nessa altura Florbela começara a manifestar os mesmos sintomas, que se agravaram com o passar dos anos, tendo, inclusivamente, tentado suicidar-se por diversas vezes.

No dia do seu aniversário, exatamente a 8 de dezembro de 1930, Florbela decide que não quer viver. Suicida-se com barbitúricos, consagrando-nos a sua obra inolvidável.

Só é reconhecida pelo grande público após a sua morte, pela publicação de ‘Charneca em Flor’ pelo professor italiano Guido Batelli, que, na altura, em visita à Universidade de Coimbra se interessara pelo seu estilo ímpar. Perante o sucesso da publicação explora as obras da autora, despoletando polémicas.

Florbela Espanca não foi só Poeta, como tradutora, jornalista, declamadora e ativista do Movimento de Emancipação Feminino, somando assim, mais um motivo para a sua marginalização. Era demasiado inquieta para a época.

Hoje, inspiração universal, os seus poemas são narrados e cantados por poetas e artistas. Cantam-na os Trovante, A Ala dos Namorados, Mariza, declama-a Eunice Munõz, Miguel Falabella, entre tantos outros.

João Maria Espanca, seu pai incógnito, não poupara meios para proporcionar-lhe formação académica, contra as mentes fechadas da época. Ao ingressar na Faculdade De Direito da Universidade de Lisboa tornou-se uma das primeiras mulheres a frequentar o ensino universitário no Portugal machista de então.
Contudo, João Maria Espanca só a perfilhou cerca de 20 anos após a sua morte. Sua mãe, Antónia da Conceição Lobo, 'criada de servir', seduzida e abandonada, não passara de uma pobre mulher, mas cujo nome jamais se apagará no tempo, ao conceber uma criatura notável como ‘Florbela Espanca’, nascida para a eternidade.

Maria Dhramamor

Mais….Espólio. ("Florbela Espanca",. Lisboa: Arcádia, 1979; 3ª ed., Guimarães, 1998)
Augustina Bessa-Luis - Vida e Obra de Florbela Espanca


Obras da Autora
Publicadas em vida:
Livro de Mágoas (1919)
Livro de Sóror Saudade (1923)


Postumamente:
Charneca em Flor (1930).
Cartas de Florbela Espanca, publicada por Guido Battelli (1930).
Juvenília (1930).
As Marcas do Destino (1931, contos).
Cartas de Florbela Espanca, publicada por Azinhal Botelho e José Emídio Amaro (1949).
Diário do Último Ano Seguido De Um Poema Sem Título, com prefácio de Natália Correia (1981).
O livro de contos Dominó Preto ou Dominó Negro, publicado em 1982.


Fonte: Google – Wikipédia; www.mulheres-20.ipp.pt/Florb-Espanca.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Memórias - Okunhuissa Olongenbia


Fonte: Youtube (Canal de Joiadafrica)                                                                                       

O Fado Mariquinhas em Umbundo (Angola)
Quem se lembra de ouvir o fado em Umbundo, na voz de Zé Viola? Ou de Nicolau Costa? Criança ainda, mas esta canção galhofeira ficou para sempre gravada na minha memória. Juntamente com outras crianças, na escola, na ruas, nos quintais, trauteávamos o fado da Mariquinhas, sem saber umbundo, mas cantando prazenteiramente. Quem diz que o fado só se cantava em Portugal? Quem diz que o angolano não sentia o prolongado lamento de um triste fado ou a jocosidade de um fado vadio?
Maria Dhramamor

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Sociedade - Vampiros Modernos

   Fonte: Youtube ''For The Real Vampire Don Henrie" - Bebendo o sangue de uma doadora

A não perder no Youtube: A Cultura dos Vampiros - Tyra Banks Show (legendado em português)

Os vampiros e as vampiresas existem e coexistem connosco, e… Atenção! Podem ser seus vizinhos do lado, ou fazer parte do seu círculo familiar!


Quando se fala em vampiros, surge-nos a ideia de criaturas esquálidas esvoaçando em noites de breu, à procura de vítimas para se banquetearem com o seu sangue e assim revitalizarem as suas energias, em busca da imortalidade. São tidos como uma espécie de mortos-vivos que surgem de tumbas e a elas regressam antes do raiar do dia, seu inimigo mortal. A crença nos vampiros é universal, antecedem o Cristianismo e são originárias do Oriente, tendo sido no séc. XVIII o auge da caça a essas criaturas consideradas ignóbeis, ou seja, o equivalente aos serial killers ou psicopatas atuais. Fossem o que fossem, fizeram parte das páginas criminológicas da época.

Bram Stocker, ao escrever ‘Dracula’ (1897), baseou-se nas chacinas de Vlad Drácula (1431/1474), Conde da Transilvânia (actual Roménia), que empalava os seus inimigos, não se coibindo de os observar sadicamente, ao mesmo tempo que regava as suas copiosas refeições com taças de sangue fresco, como se tratasse de um bom vinho. No seu caso, havia um motivo aliado à sua política de supremacia e domínio sob a égide do terror, estratégia que lhe garantiu o sucesso de muitas batalhas, transformando-o num herói nacional até aos dias de hoje, aos olhos dos seus compatriotas romenos.

Apesar dos motivos políticos de Drácula, nada havia que justificasse os seus atos de terrorismo; contudo, um ser tão ou mais terrífico, surge, na Hungria, na forma de uma formosa mulher: a Condessa Elizabete Bathory, (1560/1614), também conhecida pela 'Condessa de Sangue'. Elizabeth era casada com o conde Nádasdi, tinha 4 filhos, era bissexual, e para além de linda, era rica, inteligente e disputada. Mas queria muito mais que isso; queria a juventude eterna, nem que, para isso, tivesse que matar. Com esse propósito, Elizabeth usou sexualmente e banhou-se no sangue de centenas de belas jovens, bebendo o seu sangue de virgens, nos seus rituais, enquanto se esvaiam em sangue, alimentando a sua perversa imaginação de jamais envelhecer. Foi considerada por estudiosos como uma das mais sanguinolentas psicopatas, vampiras, até hoje conhecidas, com um recorde de mais de 650 vítimas.

Também Voltaire (1694/1778) inserira no seu Dicionário Filosófico as suas teorias sobre vampiros como ‘’corpos que saem das suas campas de noite para sugar o sangue dos vivos, nos seus pescoços ou estômagos, regressando depois aos seus cemitérios”.

Originária de Portugal, surge o mito da vampira ‘Bruxsa’, normalmente bela e com ar ingénuo, que, à noite, transforma-se em vampira por artes de bruxaria, metamorfoseando-se em pássaro para aterrorizar os noctívagos e alimentar-se do sangue de criancinhas. É tida como imortal.

F.W. Murnau, o primeiro cineasta (Alemanha) a apresentar uma história de vampiros no cinema, com o famoso vampiro ‘Nosferatu’ (1922), com Max Schreck, apresenta um ser terrífico e abominável.

Posteriormente e de forma inigualável e eterna ficou a interpretação do húngaro Bela Lugosi (1931), em 'Drácula', realizado por Tod Browning e Karl Freund (EUA), seguindo-se uma nova versão, em 1966, de Terence Fisher (EUA), interpretada brilhantemente por Christopher Lee.

Também Francis Coppola, em 1992, seduz com a sua versão de 'Drácula', arrecadando 3 Óscares, sob interpretação de um irresistível 'Drácula' com o actor Gary Oldman.

Os filmes de vampiros estão no auge. 'Twilight', com Robert Pattinson, baseado na obra de Stephenie Meyer, foi o grande sucesso de 2008, que apresenta uma geração de vampiros que derretem corações e que têm infuenciado grandemente os jovens, continuando a saga ao longo de 2010.

No mundo real surgem comunidades de vampiros que adoptam uma postura que não tem a ver com perseguir gente para lhes sugar a veia jugular ou entrar voando pelas janelas alheias, nem tão pouco se desfazem com os raios de Sol. Enquanto uns acreditam ter nascido vampiros, outros simplesmente se associam a um grupo como estilo de vida, ou por questões de 'moda'.

Os vampiros formam uma subcultura e encontram-se em herméticos clubes, nomeadamente ‘Góticos’ e não estão necessariamente ligados a práticas de satanismo ou bruxaria, embora ligados a alguma forma de espiritualidade. Dividem-se em três facções e subdividem-se em clãs: os 'Camarilla' (Brujah, Gangrel, Malkavian, Nosferatu, Toreador, Tremere, Ventrue); os 'Sabat' (Lasombra, Tzimisce); e os 'Independente' (Assamite, Giovanni, Ravnos, Setites).

Os clãs divergem na forma de estar, pois enquanto uns nutrem profundo desprezo por outros vampiros, pela evolução e pela sua própria imagem, são tiranos e opressivos em relação a outros membros do grupo. Outros exaltam  a beleza física e artística, são sofisticados, gentis e primam pelo bom gosto e pela cultura. E, acima de tudo, respeitam a liberdade de cada um.

Aliados às suas práticas e crenças, os vampiros modernos são fiéis aos seus valores, sedutores, exóticos, ecléticos nas suas roupas de preferência negras e nas suas jóias e maquilhagem hipervanguardistas. Alguns usam os seus dentes caninos afiados, ou próteses, à semelhança dos vampiros ancestrais. Adoram a noite, uns bebem sangue (de doadores), outros não, alimentando-se da energia alheia; existem os amantes do sexo sem barreiras, atingindo mesmo a perversidade, enquanto outros são assexuais (não gostam mesmo nada de sexo); os que dormem em esquifes ornamentados à sua maneira; e os que dormem em camas convencionais; os de índole sadomasoquista, e os puramente românticos, que adoram fazer amor em cima de lajes, nos cemitérios, ou simplesmente de passear pelas suas avenidas, admirando as belezas arquitetónicas dos jazigos; os que se associam a práticas de bruxaria e os que se limitam a formas mais suaves de espiritualidade.

Apreciam a literatura Gótica e Decadentista, com apetência por autores como Edgar Allan Poe, Charles Baudelaire, Sir Horace Walpole, Ann Radcliffe, thrillers modernos, videogames de horror, enfim, de uma forma geral, amam a cultura ´dark’. A morbidez, a morte, a beleza exótica são, para a maioria, fonte de inspiração. Não são adeptos da violência, embora, por vezes, surjam casos de jovens envolvidos em crimes de sangue.

Tyra Banks, no seu programa sobre vampiros intitulado ‘The Vampire Culture’, apresenta-nos alguns vampiros que nos dão o seu depoimento. São belos, jovens, sedutores, inteligentes e, por outro lado, também nos mostra os vampiros desregrados, confusos, mas que, na sua própria concepção, não deixam de ser vampiros.

As maiores comunidades de vampiros encontram-se nos EUA e na Europa, mas espalham-se por todo o mundo e Portugal não é uma excepção, pois o mistério que os rodeia torna-se por demais atrativo, principalmente para jovens que, perdidos num mundo que consideram caótico e sem perspetivas, procuram outros valores associando-se a tribos ou grupos que desafiam a sociedade.

Os vampiros modernos não voam, obviamente. Têm as suas práticas ritualísticas, mas não devem ser associados ao satanismo ou psicopatia apenas pelo facto de serem personagens exóticas e, por vezes, terem um aspecto considerado pela maioria, de mórbido. Tal como qualquer ser humano seguem as normas implantadas pelo seu grupo de eleição, e embora inseridos fielmente nos seus círculos, mantêm as suas personalidades de alma e o seu livre arbítrio como seres individuais que são. 

Mais informação sobre vampiros em:

Sociedade Brasileira de Vampirologia: http://www.sbvamp.hpg.com.br/
http://margothappy.blogspot.com/
http://lord-nosferatu.planetaclix.pt/
http://www.devir.com.br/

Maria Dhramamor

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Entrevista - Andressa Cardoso



''A Menina-prodígio de Tangará da Serra’’
                                                                                                          
Andressa tem apenas 14 anos e já é um fenómeno no Brasil, apelidada de ´’Menina-prodígio de Tangará da Serra’’. Natural de Tangará da Serra, Mato Grosso, é estudante do 1º ano do ensino médio. É uma menina ‘muito responsável desde pequena’, conforme as palavras de Mariano Félix, seu pai e tutor, que gentilmente se prestou a dar-nos esta entrevista.

M.D. – Fale-me um pouco da personalidade da Andressa?

MARIANO - A Andressa é uma menina decidida, forte, e leva muito a sério o que se dedica a fazer. É vaidosa desde pequena, se cuida muito, e se preocupa com a sua saúde.

M.D. - Quando é que se apercebeu do talento artístico de Andressa?

MARIANO - Bem, desde pequena, eu tinha mania de gravar tudo o que ela fazia, até quando começou a falar. Cresceu com o microfone na mão, aquele bem barato, de camelô (feira). Com 7 anos ela já dançava, mas foi com 8 anos que começou, através de uma professora que viu ela cantando com o seu primo na hora do recreio da escola. Dai, ela pediu para Andressa ensaiar uma música pra cantar na festa Junina com seu primo. A professora pegou a musica ‘Maria Chiquinha’, que ficou muito bem (tenho até o vídeo e um dia mando pra você). Desse dia prá frente, ela começou a participar em festivais de música nos municípios vizinhos, e no primeiro festival ficou em 2º lugar e não parou mais.

M.D. - A Andressa é estudante e praticante de outras atividades. Como consegue conciliar todas essas atividades com a carreira artística?

MARIANO - Ela consegue contornar bem a situação. Vou relatar um pedaço da rotina diária dela:

Vai para a escola às 7 horas da manhã, eu levo e busco ela, e volta às 12 horas. Pelo menos duas vezes por semana faz educação física, no período da tarde. Pratica aulas de boas maneiras, das 18 às 19 horas, na Academia Maria da Glória, depois segue para a aula de Pilates na Academia Polidene, terminando às 20 horas. Às terças feiras tem treino de futebol de salão, à tarde - a turma dela foi campeã de Futsal infantil no município. Frequenta ainda um curso de inglês e catequese, também durante o período da tarde. E ainda tem tempo para jogar à bola com os meninos da idade dela em frente a casa. Às quintas, tem aulas de dança de salão. Estuda duas horas por dia em casa. Às sextas, tem aulas de violão e técnica vocal e teoria. E ao domingo, assiste à missa.

M.D. - A Andressa participou em programas televisivos. Quais?

MARIANO - Apareceu em programas de TV e já fez várias gravações ao vivo na Emissora Local da TV filiada na Rede Globo, Centro América, TV Cidade, Rede Record, em programas locais na cidade, e ultimamente participou no programa Território Livre.

M.D. - Para além do video clip ‘Sonho de Artista’, a Andressa tem outros vídeos disponíveis na NET?

MARIANO - Sim, os vídeos clip estão disponíveis no youtube em:

M.D. - Existem perspetivas de gravar os trabalhos da Andressa em alguma produtora nacional ou estrangeira?

MARIANO - A Andressa tem um professor de música que está tentado gravar um CD, mas está difícil, pelo jeito não sai este ano. Temos um amigo produtor que é o Lucénio, que fez os clips dela e os colocou no youtube. Ele faz as gravações dela e acompanha-a.

M.D. - Têm feito digressões?

MARIANO - A Andressa já fez uma digressão com a banda da escola Vila Lobos de Tangará e ainda uma apresentação na Assembléia Legislativa em Cuiabá, mas não tem banda ainda.

M.D. - Quanto a espetáculos fora do Brasil?

MARIANO - Não existem ainda espetáculos fora do país, mas já participou de um evento em Brasilia DF, numa comunidade, e cantou com seu primo num show dele em Minas Gerais. Foi na inauguração de um asfalto na cidade de perto de Tangará (Sapezal), pelo governador, com o show de Zezé di Camargo e Luciano. Foi convidada por alguns políticos pra cantar com a dupla, e havia cerca de 20 mil pessoas. Tiraram fotos no final e o empresário se assustou porque ela só tinha 13 anos, mas pediu para ela cantar o hino nacional em playback, ela recusou, mas correu bem.

M.D. - Mariano, como se sente como pai de uma menina talentosa como a Andressa?

MARIANO - Como me sinto sendo pai da Andressa? É muito gratificante! Graças a Deus, eu consegui educar ela do meu jeito. Ela é uma menina de bom comportamento, dedicada, estudiosa e humilde. Onde passa, as pessoas têm muito carinho por ela, graças a Deus.

M.D. - Quer deixar uma mensagem ao público em nome de sua filha?

MARIANO - O público pode esperar muito desse talento, que ainda está sendo trabalhado. Obrigado e fiquem com Deus!

Mais informações sobre Andressa Cardoso em


Maria Dhramamor

sábado, 7 de agosto de 2010

ISRAEL, BING BANG BUM!



M Dhramamor (autorretrato)

III-PROSCÉNIO DE (DES)VENTURAS (vivências no palco e suas consequências)

Aeroporto Internacional de Lisboa, junho de 1998 – Destino: Israel. The 5th International Festival of University Theatre ‘Thespis d’Or’.

Estamos eufóricos e muito atrasados. Gente apressa-se no tapete rolante numa obstinada corrida aos balcões para o chek-in. A minha colega arrasta uma mala enorme e eu sigo-a. A senhora da frente puxa um trolley e carrega um chiwawa de macacão e gorro, tão minúsculo, que quase desaparece no meio das suas minúsculas roupas. Ladra com uma vozinha esganiçada e sumida, e as atenções perdem-se à volta dessa pequena criatura. O animal tenta escapulir-se, a senhora desequilibra-se e tomba sobre a minha colega, que tomba sobre as malas, que tombam sobre mim. Agarro-me desesperadamente ao corrimão e fico pendurada, até que um cavalheiro me segura e impede uma queda fatal. A minha colega fica ruborizada e quase desata num pranto. Eu tremo de indignação, porque a senhora desaparece sem um pedido de desculpas, preocupada com a criatura irrequieta que continua a ladrar furiosamente.

Uma fila imensa para o voo 'AF 1924', escala em França, aeroporto Charles de Gaulle. Sento-me a um canto a observar o movimento. Estamos todos muito cansados porque fora difícil obter patrocínios para a viagem. Por outro lado, o pai da minha colega que quase fora esmagada por malas tinha aparecido à porta do Teatro, antes de apanharmos os táxis para o aeroporto, para amaldiçoá-la e ao resto do elenco, pelo nosso amor a uma atividade de ‘miseráveis’. A atriz mais nova, que ainda não tem 18 anos, viaja com autorização dos pais, e chora baba e ranho por ter abandonado a avó com Alzheimer para satisfazer a ambição de subir a um palco internacional, certa de que será castigada pelo seu contentamento. O diretor está atrasado. O seu assistente, ensonado, mal dormira, pois passara a noite a sacudir o esqueleto na 24 de Julho. Estou sonolenta e tensa, vítima de mais uma noite em claro, pois o meu namorado (da altura), semicareca, indigente e alcoólatra passara a noite embriagado a pular em cima da minha cama, atacado pelo complexo de Sansão, e arremessando-se continuamente contra a parede, na vã tentativa de assassinar um rival cabeludo imaginário.

O diretor acaba por chegar, ofegante. Finalizamos o chek-in e estamos na sala de embarque. Não falta muito para que a tensão se estenda a todos. Estou sentada ao lado do diretor e do assistente, em silêncio, absorvida pela discussão que, de repente, se trava entre os atores. Estamos sem paciência para intervir, e assim como começara, acabara a briga.

Embarque. Recuso sentar-me à janela e passo para o banco do meio. Todas as viagens de avião são, para mim, um pesadelo. Tento afogar a minha fobia bebericando pequenas garrafas de vinho (apenas duas), pois, de outro modo, seria catastrófico. Mas o método não funciona. Fico num estado de falsa apatia. De cada vez que surge uma turbulência, agarro-me ao banco onde estou sentada, como uma tábua de salvação. Divago sobre as indicações do voo. O colete de salvação, a máscara de oxigénio, as saídas laterais... Reparo na asa e imagino barbatanas a despencarem-se por todo o lado. Transpiro. Estou metida num recipiente gigante com toneladas de combustível e constituído por toneladas de metal. Se o avião se despenha, de que adiantam os coletes? E os tubarões? E a hipotermia? O suor escorre-me, mais uma garrafita de vinho, e o diretor manda-me parar. O assistente diz-me que beba, que assim durmo e não arruíno a sua paciência. Estou mal disposta. Tento ler ‘1934’ de Alberto Moravia: ‘Por essa razão, Beate não queria morrer por ter conseguido criar uma relação entre Nietzsche e Kleist, mas tinha conseguido criar uma relação entre Nietzsche e Kleist porque queria morrer’ – Uff! Que bela conversa!

Coloco o livro de lado.

França. Aeroporto Charles de Gaulle. Mal me sustenho nas pernas. «Un jus de fruit, s’il vous plaît, monsieur, merci beaucoup!» Voo direto. Mais horas de viagem, que horror! Quero voltar para Lisboa, quero ir para a minha cama!

Chegada. Shalom Tel Aviv-Yafo! «Olá, Telavive!» Aeroporto. Autocarro. Destino: Jerusalém. Chegada. Outro autocarro. Chegada. Estamos diante de um edifício em pedra como todos os outros, diferentes de tudo o que virámos até à data. Jerusalém não se iguala a lugar nenhum, é único e inesquecível. Seguimos o guia e atravessamos um longo corredor com dezenas de portas laterais, e finalmente chegamos a outro imenso corredor, com outras dezenas de portas laterais. Quase todos os atores que irão participar no festival Internacional estão lá instalados. Gente de patins a esgalhar pelo corredor, guitarradas, assobios, gritos em vários idiomas e eu quebro. Estou deprimida. Por favor, imploro, tirem-me daqui. O diretor abana a cabeça. «É aqui que vamos ficar durante 8 dias e 8 noites.» «Não vou aguentar!» Estou ressacada, desequilibrada, enquanto os meus colegas vibram de excitação. Mal pousam as malas e já estão no paleio com um guedelhudo patinador. Entro na nossa camarata e conto cinco beliches com duas camas, ou seja, terei que dormir com mais nove mulheres no quarto, incluindo as minhas três colegas. Abomino a ideia. O diretor, que a princípio se mostrara otimista, começa a aparentar sinais depressivos e quase não tem ânimo para proferir uma palavra que seja. Queremos fugir daí, mas os meus colegas mais jovens insurgem-se contra a nossa ideia de fuga. Adoram aquele ambiente ruidoso, e tencionam arranjar patins e fazer parte da equipa de patinadores. Finalmente, o diretor consegue falar com alguém da organização. E assim, vamos parar a um pequeno hotel, sem pessoal, porque é sábado, dia do ‘sabat judaico’. Quem nos atende é um dos patrões, que se encontra na receção, porque os outros trabalhadores são judeus ortodoxos e não trabalham nesse dia. Dá-nos roupa de cama e nós temos que as fazer. Está tudo desarrumado e dizem-nos que teremos que esperar pelos arrumadores no dia seguinte. Resolvemos fazer a limpeza dos nossos quartos, com dois beliches cada. Estamos famintos. Recomendam-nos o ‘Riff-Raff Café’, um sandwichbar na Hillel Street. Admito a simplicidade do diretor. Poderia ter ido para um hotel de qualidade superior, ou para uma residência particular, mas prefere permanecer com o elenco. O diretor é das pessoas mais simples que conheço, apesar de o seu trabalho ser reconhecido internacionalmente.

No dia seguinte vamos visitar a Universidade Hebraica. É lá que passam a ser as nossas refeições, gratuitas, e onde vai decorrer a maior parte do festival com grupos de vários países. Somos o único grupo de Portugal.

O ´Thespis d’Or´ teve início em 1992, promovido por esta famosa universidade em honra de Thespis de Icaria (sec. VI a.C), o primeiro ator e expoente máximo da tragédia grega, a interpretar um personagem, tendo supostamente inventado o teatro ambulante e a quem são atribuídas as primeiras peças escritas. O Dr. Isaac Benabu, diretor artístico deste projeto, dá-nos todo o apoio. Estudantes e membros do corpo docente aproximam-se para falar com Xosé Blanco Gil, o nosso diretor, que é formado em Filologia Românica, cultíssimo e um grande amante das Artes e das Letras, sendo ainda tradutor de obras clássicas e muito considerado por todos, sendo o facto, um grande orgulho para mim. Agarro-me a ele como uma lapa, pois esta terra fascina-me e quero ouvir tudo o que dizem sobre ela. Esta gigantesca universidade de várias áreas, nomeadamente medicina, zoologia, física, química, economia, engenharia e altas tecnologias tem, nessa altura, mais de 20.000 alunos, e possui quatro campus, escolas, faculdades e ricas bibliotecas, sendo o seu acervo de cerca de 5 milhões de livros. Entre 1925 e 1928, Albert Einstein, que fora presidente desta universidade, deixou um legado de cerca de 55.000 artigos do seu património. Dizem-nos que é uma das maiores do mundo. Autorizam excecionalmente a nossa entrada no templo, e emprestam um ‘kippah’ a cada um de nós, uma espécie de chapelito que cobre apenas o centro da cabeça, usado por respeito a 'Heloim' (Deus). É um ambiente calmo, uma energia vibrante. Lâmpadas simulando velas ardem junto a uma placa com letras douradas, com os nomes dos professores assassinados pelo regime nazi. Sinto um aperto no coração. Estamos todos comovidos.

Nos dias seguintes percorremos a universidade, circulando de autocarro. Estamos fascinados com os seus laboratórios e entusiasmados com os vários mercados de artesanato existentes nos seus edifícios. Descobrimos que existem estudantes de todo o mundo. Procuramos por estudantes portugueses e ninguém nos confirma a existência dos nossos compatriotas. Acabamos por conhecer algumas estudantes brasileiras, o que nos faz sentirmo-nos felizes por ouvir falar português. Somos bem recebidos, os estudantes são afáveis, e o corpo docente presta-se a apoiar-nos com informações interessantes sobre o trabalho da universidade. Nas ruas, abordam-nos, pois muitos sabem que viemos ao festival. A única coisa que conhecem de Portugal é o 'Benfica' e 'Eusébio'. Há uma diferença social incrível. De um lado, os judeus ortodoxos com o seu conservadorismo. Nos seus bairros não é permitido circular com partes do corpo à mostra, como braços e pernas, e muito menos com decotes. Quem o fizer, arrisca-se a ser apedrejado. Quanto aos judeus barbudos e cabeludos, nem sempre é assim. Nas ruas, estão expostos, para venda, chapéus já com barbas e suiças incorporadas, destinadas aos judeus ortodoxos, pois alguns até são carecas, pelo que nos dizem!

Contudo, a parte moderna é de uma inesperada exuberância. Gente linda, fashion. À noite, diversos palcos nas ruas, música muito atual, e… por Zeus! O pessoal abusa da moda – pegam nas suas roupas de ‘griffe’ e rasgam-nas, exibindo-as, tipo blusa só com uma manga, calças esfarrapadas com o traseiro à mostra, anéis nos polegares, tatuagens, piercings, cabelos coloridos… E nunca vi tanta gente de olhos verdes! Depois de desfilarmos nas ruas partimos para os bares – loucura completa! Discriminação sexual? Se há, não dou por isso! Reparo sim, numa miscelânea de homossexuais, heterossexuais, travestis, bissexuais, and so on... em bares específicos, que percorremos por curiosidade. Por outro lado, anda tudo eufórico, porque um transsexual chamado Dana Internacional ganhara há um mês atrás o festival da Eurovision com a canção ‘Diva’. Dança-se a ‘Diva’ em todo o lado. Somos desejados por homens e mulheres, por um lado, por sermos artistas, e isso causa-nos alguma confusão, mas depois passa a ser divertido. Uma jovem persegue-me apaixonadamente durante noites inteiras; sinto-me constrangida e deixo de aparecer no sítio; enfim, não me sinto preparada para responder a esses arremessos.

Os jovens têm uma cultura surpreendente, pois a ideia que tinha dos israelitas era completamente contrária. Apostam na educação e têm uma das maiores taxas de alfabetização do mundo. Falam vários idiomas com fluência. Rapazes e raparigas cumprem o serviço militar obrigatório aos 18 anos, sendo muitas delas patenteadas. Vemo-las circular pelas ruas, de metralhadoras, por vezes com roupas civis, quando há uma emergência. Cheguei a ver uma rapariga de minissaia e metralhadora ao ombro.

Alguns grupos apresentam-se na Universidade Hebraica, enquanto outros, num Teatro no centro de Jerusalém. O festival começa sempre no início da tarde, e prolonga-se por 4 dias. Circulamos de autocarro. Porém, um dia, atrasamo-nos, e quando chegamos à universidade, olham-nos surpreendidos, pois pensam que tínhamos morrido. É que, nesse preciso dia, o autocarro que costumamos apanhar, transportava um suicida a bordo e haviam morrido algumas pessoas, contando-se estrangeiros, entre elas. No dia seguinte, havia uma poça de sangue no chão, junto à paragem do autocarro. Não assistimos a nenhuma explosão, embora ouvíssemos inúmeras histórias, como a chacina no mercado que costumamos visitar, onde outro suicida havia causado várias vítimas.

Somos revistados em todos o lado, por militares ou civis armados: no supermercado, discotecas, lojas, e uma das vezes, somos revistados num minimercado de um português (o único que temos o prazer de encontrar) – uma festa!

Todos os dias vamos ao mercado à procura de água (caríssima), pois a água da torneira é intragável. Por outro lado, ando enjoadíssima. Nos três primeiros dias degluti barbaramente Shishlik, kebab, shishkebab, baklaweh, etc., como se fosse o último dia da minha vida, e ao quarto dia, fartei-me de vomitar. Não aguento nada no estômago. Gostamos de ir ao ‘Barood’, na Jaffa Road, onde se encontra boa comida israelita, bebidas exóticas e bandas de Jazz. O espaço é frequentado, na sua maioria, por artistas e jornalistas. Por vezes, vamos ao 'Mc Donalds' e 'Pizza Hut', ou outros locais de comida internacional; normalmente como fruta porque a minha úlcera tem reclamado. Na universidade, nos últimos dias, só consigo alimentar-me de melancias porque o resto da comida me enjoa; o cheiro, principalmente; e não entendo porquê, pois adoro comida israelita.

Todas as peças têm o seu interesse; noto que os palestinos apresentam peças que refletem toda a sua angústia. ‘The Palestinian Girl’ de Yehoshua Sobol, em hebraico, é perturbadora. Trata-se de uma história de amor impossível entre uma palestina e um judeu. Cenas de guerra, gritos e choro no palco, olhares de mágoa, revolta. Relembro a dolorosa realidade destes povos e agradeço ao Cósmico a minha liberdade. Também aprecio ‘Smoking‘ de Guy Tene, e embora seja também em língua hebraica, consigo interpretar a peça. Todos os países representam na sua língua e nós, obviamente, apresentamos as nossas peças em português.

No dia da minha atuação estou nervosa. A sala está repleta e perguntamo-nos de que forma chamaremos a atenção com uma peça clássica, com uma linguagem arcaica como a de Gil Vicente. Antes de entrar para o palco, vejo tudo andar à roda. Batidas cardíacas. Falta de ar. Esqueço-me de tudo, não me lembro de uma única palavra do texto; os meus colegas ficam solidários comigo, abraçam-me e dão-me beijos para me acalmarem. Mas porque é que dizem que se tem uma 'branca'? Vejo tudo escuro! Black! Nem sei onde estou! Entretanto, a peça começa. Os meus colegas estão no palco e chega a minha vez. Estranham eu não ter entrado, empatam, e oiço rir na sala. De repente, lembro-me de tudo: sou a Velha, a maldita, asquerosa e malvada Velha. Entro a correr e assumo a minha posição; entorto os olhos e inicio a minha atuação. O diretor contracena comigo, no papel do Velho, o meu vitimizado marido. Vira-me constantemente a cara e eu percebo que ele se esforça para não se desmanchar a rir; coço-me, estrebucho de tanta maldade e divirto-me com a cara dele. Quando entra o Parvo, sou eu que luto para não me rir e o público quase não nos deixa falar. Riem tanto que temos de elevar a voz, mas para quê? Os nossos gestos são hilariantes. Afinal, tudo acaba bem. Também apresentamos ‘A Lição’, de Eugène Ionesco, na qual não participo, e que arrebata um dos prémios. Estamos todos muito orgulhosos. Fartamo-nos de dar autógrafos e de responder a questões sobre Portugal, o Teatro, o Benfica, Eusébio, etc., etc.! Que sensação!

Visitamos o muro das lamentações. É uma zona cara. As casas viradas para o muro são dispendiosas. Outra das nossas visitas, a Massada, leva-nos a passar por zonas desertas. Vemos casas supostamente vazias, e uma barreira de arame farpado com militares. Estou em pânico. Lembro-me da guerra em Angola e fico aterrorizada. Agarro-me ao meu colega e tremo. Estou gelada e ele tenta acalmar-me com uma anedota obscena. Estão eufóricos quando os militares nos mandam parar. Só quem já passou por uma guerra sabe o que pode acontecer. Não estamos num país em guerra, mas estamos num país onde se faz guerra. Ainda bem que eles não têm noção porque, de outra forma, estariam como eu. Deixam-nos passar com o salvo conduto que o motorista apresenta.

Divertimo-nos em Massada. Aproveitamos para visitar o Mar Morto. É difícil mergulhar, pois é como se estivéssemos a mergulhar em óleo. Cadeiras flutuam na água e as pessoas sentam-se nelas como se estivessem num barco. Dizem-nos que não mergulhemos por causa do excesso de sal. Na verdade, não existe areia, mas sal. As pessoas estendem toalhas em cima do sal e deitam-se. De tempos a tempos voltam ao mar e metem-se debaixo do chuveiro para tirar o sal. Cometo o erro de mergulhar e ardem-me os olhos. Dizem-me que pode causar cegueira. Lavo os olhos que picam como agulhas.

Aeroporto, de novo. Os meus colegas passam o controle, mas eu e a minha colega mais nova, a que tem menos de 18 anos, somos detidas. Acusação: possíveis terroristas palestinianas, a monte. Temos os mesmos traços das fugitivas, alegam. A minha colega é uma bela rapariga, bem constituída, de longos cabelos até à cintura, olhos grandes, lábios grossos. Duas raparigas do corpo de segurança, armadas de metralhadoras, olham para ela e para a fotografia e cochicham entre si; depois levam-na. Eu tenho duas tranças compridas, e o cabelo ligeiramente arruivado, para o caso de ter que substituir alguma colega numa das peças, pois, no nosso teatro, normalmente sabemos os papéis uns dos outros. Acontece, por vezes, fazer dois papéis na mesma peça. Daí que, embora representasse a ‘Velha’, poderia também representar a ‘Constança’ do Auto da Índia, apesar dos meus traços africanos, se a minha colega, por algum motivo, não pudesse subir ao palco. A agente de Polícia olha para o meu passaporte e chama duas das suas colegas. «Não pareces a da foto!» «Sou atriz, tenho extensões.» Abrem a minha mala, despejam tudo. Falam-me em inglês. «Arranjáste amigos durante a tua estada aqui?» «Sim.» «Quantos?» «Vários.» «Onde? Oferecerem-te alguma coisa? Não? De certeza?» «Mas, porquê estas perguntas? Sou atriz! Estou a representar o meu país! Chamem o meu diretor!» «Se te oferecem bonecos, podem conter uma bomba. Se te oferecem perfumes, ‘Bum!!!’ - O frasco pode explodir! Eles fazem amizades para que possas ser correio, transportar uma bomba, entendes? Além disso, és suspeita!» «Please, let me go! S’il vous plaît, laissez-moi! Chamem o meu diretor!» Elas não querem saber, não importa em quantas línguas eu reclame. Fecham a minha mala e pedem-me que as siga, as três armadas, e eu estremeço. Lembro-me de Angola, da guerra, do que vivera e entro de novo em pânico. Os meus colegas apercebem-se da nossa ausência. Estão do outro lado, já passaram a Segurança. Grito. O diretor pensa que estou a fazer uma cena, mas quando dá pela ausência da nossa ‘mascote’ pede para falar com o chefe. Discutem, enquanto se ouve a última chamada. Conseguem ligar ao Cônsul português, e só assim nos libertam. Desatamos as duas a chorar e quando nos dirigimos ao avião, somos os últimos passageiros a subir a escada, antes que esta seja recolhida. Doce sabor da liberdade! Trepo a escada num ápice. Estou ainda assustada mas lá, no cimo, está Adónis. Por Zeus! Preciso urgentemente de desmaiar. «Oh, I feel so bad!» Adónis, o belo comissário de bordo, tenta apoiar-me e eu deixo-me encostar ao peito dele. «I feel so bad!» Mas o diretor destrói as minhas pretensões e fala-me em espanhol, como sempre faz, quando está aborrecido. Arrasta-me daí. «Te conozco bien!» Sento-me. Por Zeus! Estou sentada em cima de toneladas de gasolina e metida no meio de toneladas de metal. «Whisky, Please!»

Maria Dhramamor