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quarta-feira, 28 de abril de 2010

Do Desespero e do Amor... - Maria Dhramamor


Poema extraído do romance 'Fragmentos de Cristal'


DA MORTE DE ONDINA…


Quando em ti penso,
Amor meu,
Esvoaço.
Voltívola borboleta de translúcidas
Asas,
Buscando nenúfares em pluviosas nuvens
No espaço.
Ah, romeira,
Débil suspiro,
Breve quimera,
Fogo que minhas asas
Queima,
Dolorosa volúpia que minha alma
Fende,
Indizível prazer que meu corpo
Rasga
E explode num grito.
Oceano imenso,
No teu olhar mergulho.
Meu mar profundo de serenas águas.
Selvagem fragrância,
Incenso,
Minha obsessão,
Meu rito,
Desfalece minha alma
Quando em ti penso,
Amor meu.


DO DESESPERO DE EURICO…

“Também eu... também eu, esvoaço, amor meu, quando em ti penso.”


Eu sou Orpheu e seguir-te-ei com a minha lira até às profundezas do Hades, desafiarei a morte, enfrentarei Plutão e passarei indiferente por Cerbero o guardião assassino, para te buscar nas negras cavernas da morte.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

TE VI NA TV



I - PROSCÉNIO DE (DES)VENTURAS (Vivências no palco e suas consequências)

Luz! Câmara! Ação!
O autocarro da produtora desliza vagarosamente no meio do trânsito infernal. Estou sentada, em silêncio, a observar o bulício do tráfego através da janela, feliz por ser mera espetadora. Somos pouco mais de meia dúzia, e uma célebre atriz está sentada junto do motorista, que vai comentando o seu desespero a tentar escapar a condutores apressados e impertinentes. A atriz pouco fala, mas observa-o com indulgência. O resto do pessoal está acumulado no fundo do autocarro, em silêncio. Aproveito para interiorizar a minha personagem.

O autocarro entra agora num bairro de lata, e pára. Descida.

Reparo na diversidade das habitações: umas, com a pintura ainda fresca, telhados recentes, janelas enfeitadas com plantas que parecem dançar ao Sol. Mas, a maior parte das casas não passa de construções desestruturadas, de tijolo, pintura desgastada, ou revestidas de papelão e bocados de madeira carcomida. Descubro janelas quebradas, cortinas gastas por detrás de pardas vidraças, e ainda portas abertas de par em par numa inquietante placidez. As casas parecem-me sobrepostas de forma desconjuntada, prontas a desmancharem-se em rudes sepulturas de seres desditosos e esquecidos por Deus.

Crianças seminuas espreitam-nos com olhos despertos e mansos. Soltam risadas cristalinas que me adoçam a alma. Adolescentes amontoam-se nas esquinas e sussurram entre si. Por vezes, uma gargalhada. Poucos adultos, muito poucos. É dia de trabalho e quem já é desafortunado não pode esperar quieto pela complacência da vida. Os velhotes estão sentados em bancos improvisados com grades de cerveja vazias e parecem alheados, mas contemplam-nos circunspectos. É um cenário estranho, e sinto-me invadir por uma mescla de encantamento e dolorosa melancolia. Apesar do calor, um frio percorre-me o corpo. Nunca me habituarei às abismais diferenças sociais.

Ouvem-se suspiros e uma das meninas que viajava nos bancos traseiros encosta-se a mim, como quem procura abrigo. Solta um gritinho sobressaltado e expressa o seu ‘horror’ à miséria exposta de forma tão brutal. Confessa o seu medo de gente ‘asquerosa’ das barracas. Não gosto do seu comentário. «Existe muito boa gente nas barracas e das barracas tem saído muita gente ilustre, sabias?» «Tretas.» Parece desapontada e vira-me as costas.

Quando descemos, populares amontoam-se à nossa volta, num burburinho. Vejo dois elementos da GNR, possivelmente contratados para manter a ordem no local das filmagens. O staff foi pontualíssimo. O elenco começa a organizar-se, com as atrizes e figurantes entregues à caracterização. A equipa técnica espalha toda a sua parafernália. Acendem e apagam luzes num alternar de brilhos, afinam o som e gritam uns com os outros tentando ajustar as câmaras, enquanto aguardam a chegada do realizador. A caravana com o compartimento de adereços e de maquilhagem tem as portas escancaradas e, lá dentro, está uma bela atriz a ser maquilhada. Tem as pernas dengosamente esticadas em cima do balcão recheado de cosméticos e os seus longos cabelos castanhos tombam sobre o espaldar da cadeira. A maquilhadora conta uma piada e detém-se, enquanto solta uma estrondosa gargalhada. A atriz tem os olhos fechados e esboça um sorriso delicado.

Sinto-me deslocada e sento-me nos degraus da caravana a observar tanta gente com os olhos postos em nós. Tento abstrair-me. Chamam-me ao guarda-roupa e fico agradavelmente surpreendida. Lá dentro, envergando um curto vestido castanho, está uma das atrizes que havia participado no casting comigo. E reconheço também a responsável do guarda-roupa. A atriz sorri-me, e pouco depois, estamos a conversar.

Vestem-me umas jeans muito justas e um top apertadíssimo e decotado que deixa em evidência os meus seios, de forma atroz. Reclamo. «Então, não vais fazer de puta?» E observa uma folha branca de papel. Não lhe respondo. Ela olha para mim e pisca-me o olho. A atriz desaparece e passo para as mãos da maquilhadora, que também já conhecia. «Oi, como vai você?» Puxo a cadeira para me sentar. «Tá pronta?» «Prontíssima!» Carrega-me a maquilhagem nos olhos e coloca-me um batom vermelho nos lábios. «Meu Deus!» Exclamo, resignada com a minha imagem espampanante.

Quando saio da caravana, o Sol brilha intensamente e já as filmagens estão a decorrer. As pessoas respeitam o trabalho da equipa e mantêm-se em silêncio. Nota-se uma agradável quietude, e até mesmo as crianças e os cães vadios são envoltos por essa mansidão. O tempo parece ter parado e eu, por momentos, perco-me do lugar onde estou.

Está a ser gravado um plano geral do local específico para a cena, envolvendo apenas alguns figurantes que se deslocam conforme orientação que lhes foi dada.

Gravado! Corta!

Sobressalto-me. Sento-me no chão, nervosa, a mastigar as palavras, com receio que se percam na imaginação. Tento assimilar a minha personagem. ‘Sou uma galdéria, vadia, meretriz das estradas, das vias, dos becos… rameira, rameira, rameira’. Fecho os olhos. Uma mão toca-me o ombro, levanto o rosto e vejo a garota inclinada sobre mim. «Também entras na novela?» «Sim, entro.» «E o que fazes?» «Sou uma qualquer.» «Qualquer, como?» «Uma tipa que anda por aí…» “Queres dizer, uma puta?» «Se preferes assim…» «Hum… dás-me um autógrafo?» «Não tenho caneta.» «Eu também não, mas como é que uma gaja atora, não tem caneta?»

Observo-lhe o bonito rosto sardento e os olhos esverdeados a chisparem de indignação. «Sim, e como é que uma rapariga do teu tamanho diz atora, em vez de atriz?» «Vai à merda!» Explode, atirando o cabelo arruivado para trás. Está acompanhada por uma adolescente de porte altivo, que me fixa seriamente. Parece desconcertada. Tem uma maravilhosa cor de ébano e o cabelo crespo e brilhante, cortado rente à cabeça, assenta-lhe bem. «Olá rainha do Sabá!» Sorri, timidamente, mas a outra dá-lhe uma cotovelada. Olho para ela furiosa. «Desculpem borboletas, preciso de estar sozinha!» A ruivinha sardenta pragueja e atravessa para o outro lado, arrastando a rainha do Sabá. Alívio. Bendita adolescência! Finalmente caio em mim.

Exterior. Ação!

À minha frente desenrola-se a cena com a minha colega de casting. Ela atravessa apressadamente a rua, enquanto a câmara foca o seu corpo, e aproxima-se de uma casa velha com aspeto sombrio. A câmara avança, fixa-se nos ombros e no rosto dela e fecha em close-up. Gravado! Corta!

Uma extravagante assistente de cabelo alaranjado e calças de balão às riscas brancas e pretas avança pressurosamente. Transporta a claquete, um pequeno quadro negro com anotações técnicas da filmagem. A assistente avança para o próximo take e fecha-a, com um click, ou melhor, um claque. Ação! Novo plano. Ela volta a entrar em cena. Desenrola-se o conflito. A minha colega de casting tem agora os lábios contraídos e olhos de autêntica megera. Mas enfrenta uma criatura mais pérfida que ela e ambas se envolvem em falas acutilantes.

Corta! Algo correra mal.

Repetem e voltam a repetir as falas. A minha colega de casting suspira profundamente, evidenciando sinais de fadiga. Tem o rosto brilhante do calor ardente. A maquilhadora, sempre atenta, aproxima-se  pressurosamente e passa-lhe pó pelo rosto. Retifica o batôn, quase impercetível. O realizador grita que está tudo atrasado, não há tempo para merdices, que se apressem, e eu reajo. Sinto-me incomodada e não consigo sentir a personagem. ‘Sou uma rameira’, penso com força, e continuo a não sentir a personagem. “Sou descarada, impertinente e provocadora”. Repito para mim própria, e nem assim eu sinto a outra dentro de mim.

Está um silêncio sepulcral. Ouve-se apenas as vozes das duas atrizes. Os populares mantêm-se imóveis, como se fizessem parte do cenário. Um cão ladra, um miúdo manda-o calar e o realizador grita, porra, corta, e voltam a repetir a cena. O cão é escorraçado a pontapé, os adolescentes juntam-se e sussurram entre si. O operador de câmara manda-os calar com um berro. Um dos polícias aproxima-se do grupo de adolescentes e fala-lhes em voz baixa. Calam-se subitamente. A cena é finalmente gravada.

Interior.

Entro para dentro de uma casa escura. «Acendam a luz, porra!» – grita o cameraman. Quando a luz invade o espaço, vislumbro um véu de teias de aranha, com uma aranha enorme a fazer alpinismo e um quadro torto a representar uma mulher nua. Endireito-o. «Mas que raio, deixa o quadro como está!» «Desculpa, tudo bem…» As teias de aranha envolvem-me a cara e eu tento livrar-me delas. «Mas… isto tá tudo sujo, ainda caio num buraco e nunca mais ninguém me vê… Vive gente aqui?» «Claro, esta espelunca está a ser paga!» «Meu Deus» Desabafo, ao mesmo tempo que tento livrar-me da aranha que avança agora na minha direção.

Ação! Caminho na penumbra. A câmara segue-me. Corta! Gravado!

Mudança de Cena. Interior para exterior.

«Abres a porta e quando eu disser, sais!» «Ok» Tocam a campainha, abro a porta ao sinal do operador de câmara. Dou de caras com a mesma personagem que estava a gravar com a minha colega de casting. Ação! Primeiro plano! Saio de rompante e enfrento-a, enquanto esta me fuzila com cruéis olhos azuis. Continua com o seu ar de megera. Abro-lhe os olhos, como represália, bamboleio-me, solto uma gargalhada cruel quando ela me coloca questões às quais não pretendo responder.

«Corta! Não! Escandalosa demais!» «Mas é assim que sinto a personagem!»

«Isto é clichê que já não se usa!» Protesta a atriz com quem contraceno. Fico irritada. Resolvo ser uma rameira mais comedida. Baixo os olhos, torno-me dissimulada, mordaz, sem grandes paródias. Corta! Gravado! Uff, que alívio!

Passam-se meses. Não via novelas. Estava em cena no Teatro Ibérico de Lisboa e não tinha mesmo tempo para ver novelas. Está um belo dia do sol, morno, apetecível. Venho de Lisboa e desço na estação das Mercês. Vejo um adolescente ‘sui generis’ a avançar na minha direção. Tem uma faixa branca a envolver-lhe a testa, e observa-me perplexo. Agarra-me num braço. «Então?» «Te conheço, e tu vais sair comigo.» «Tens idade para ser meu filho, respeita-me» «Sou angolano de Angola e se sais com os outros, sais comigo, te vi na TV, fingida!» Não posso acreditar. Mais uma vez, estava a ser julgada na rua pela personagem de uma novela. «Garoto, o que tu viste foi ficção, entendes, não é real, é novela, entendes?» Aperta-me ainda mais o braço e eu praguejo. Estou arreliada. «Andas aí na night, com a outra tua amiga bandida e não queres sair comigo, um angolano d’Angola?» Dá-me um murro no braço, mas, na altura, não sinto dor. Estou demasiado aturdida.

As pessoas passam e fingem não ver a cena. Não há um único elemento da Segurança na estação. Um senhor, dos vários que desembarcam do comboio, detém-se. Arranca-me das garras daquela imitação barata de Jimmy Hendrix. «Eu t’apanho, tuga!» E agarra o meu salvador pela gola da camisa, deixando-o a contorcer-se, aterrorizado. Felizmente chegam dois senhores que, entretanto, arrebatam o outro, salvando-o de um possível estrangulamento, pois o belicoso adolescente é dotado de uma força brutal. «És a vergonha da nossa terra!» Dizem-lhe, com ar contristado. «Não sabes respeitar uma senhora?!» «Bandida!» Grita-me, chispando um ódio dilacerante. «Te vi na TV!»

Maria Dhramamor

sábado, 3 de abril de 2010

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Espero que leia e comente, pois independentemente do que diga, ficarei grata pela participação.

Um abraço,

Maria Dhramamor