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domingo, 23 de maio de 2010

O MISTÉRIO DO GUARDA ROUPA E OUTROS QUE TAL...

 II-PROSCÉNIO DE (DES)VENTURAS (vivências no palco e suas consequências)

Atenção: texto escrito de acordo com as novas regras do acordo ortográfico.

1
O diretor observa-nos com o ar absorto, que tão bem conheço. Como se a sua imaginação tivesse atravessado o espaço sideral em direcção ao infinito.

Estamos sentados ao redor da mesa, na penumbra, à espera. Um candeeiro projeta uma luz desmaiada sobre os nossos rostos ansiosos.

O diretor encara cada um de nós, como se nos estivesse a esmiuçar a alma, enquanto distribui os textos com as nossas personagens. Quando chega a minha vez, detém-se. Sorri, com ar triunfante. «Inventei uma personagem para ti. Uma amante africana!» E entrega-me uma folha com o texto que ele engendrara num dos seus intermináveis momentos de inspiração. Leio-o, pausadamente, quando chega a minha vez. Sinto o sangue aflorar-me ao corpo inteiro, ao deslindar essa concubina ingénua e, ao mesmo tempo, impudica. Não conheço ninguém do grupo, muito menos o ator com quem farei cenas burlescas, em cima de uma cama imensa (no palco), obviamente…

A namorada do ator repousa confortavelmente a sua beleza, a um canto, afundada num cadeirão tipo Império, ostentando o seu olhar cáustico. Parece incomodada. É temida e afamada por desacatos em teatros e botequins, pois a sua desenfreada imaginação fá-la acreditar que o seu namorado é o repasto predileto do mulherio. Segundos os mexericos, ela é a ‘fúria em pessoa’, principalmente quando o seu sexto sentido entra em alerta máximo, detonando na presença de alguma ‘evita’, potencialmente perigosa, na sua opinião. Temo pela minha integridade física, sempre que, da minha boca, saem as palavras lascivas da minha personagem. Nem me atrevo a levantar os olhos do papel. Para meu sossego, as notícias dessas rixas arrebatadoras chegam aos ouvidos do diretor, valendo-lhe a proibição de assistir aos nossos próximos ensaios.
2
No dia seguinte, repete-se a leitura dos textos. É obrigatória a nossa atenção aos sentimentos da personagem, portanto, em casa, lera e relera milhentas de vezes, até sentir indícios de alguma emoção. Quando chega a minha vez, leio o meu texto, mas, treme-me a voz ao pronunciar as palavras de conteúdo erótico. Mais uma vez, o rubor. Mas que raio! Já tive comportamentos muito mais ousados, sem pudores. Respiro fundo e, finalmente, amanso a minha inquietação e começo a divertir-me com tanto deboche. Parece-me apropriado a uma peça de Nelson Rodrigues, que admiro pela sua ousadia, pelo seu desafio à hipocrisia social.

Estou ai para representar, exactamente isso, mas ser ator, não basta verbalizar ou gesticular. É preciso estar na pele de qualquer um, virar homem, mulher, criança e até coisa. É sentir mil vidas dentro de nós, e esquecer a nossa, enquanto as vivemos. E é fazer com que o público as viva juntamente connosco, como se fizesse parte do nosso mundo cénico.
3
Começamos os ensaios no palco com uma série de exercícios físicos de aquecimento, relaxamento, e finalmente, de colocação e projecção da voz, envolvendo a contorção e distensão do corpo, caretas faciais dignas de Jim Carey, e sons vocálicos que lembram um coro bárbaro. Os gestos parecem ridículos, mesmo para nós, os atuantes, mas é vital para um bom desempenho a nível de expressão corporal e emotiva. Só depois, com o texto mais ou menos assimilado, estamos prontos para as marcações no palco. «Tu ficas aqui, tu ali, aqui vai ficar a cama, ali uma cortina, etc.» diz o diretor. «Comecem a representar as vossas personagens» «Que faço?» Reclamo. «Não importa, façam o que quiserem, deixem-se levar! Interajam com os objetos!» Lembro-me de como o encenador é um seguidor nato de Stanislavski. Só pode ser isso o que pretende, observar, em silêncio, e ver até que ponto o ator atinge o realismo psicológico dentro do espaço cénico.

Já o conheço, mas os outros ainda não. Estão entusiasmados perante o seu silêncio aparentemente aprovador. Fico sempre constrangida com esse mutismo, enquanto não me sinto desligada da pessoa que sou. Horas depois, manda-nos parar e diz que não tem comentários, que continuaremos nos próximos ensaios. Durante pelo menos mais dois dias, não se manifesta.
4
Estamos de novo reunidos e chega a parte mais esperada: a sentença. O diretor está sentado, na penumbra, e a sua voz bem timbrada ecoa pelo teatro inteiro, aliada à fantástica sonoridade do espaço, com condições acústicas impressionantes. As críticas são contundentes, despidas de contemplações. Silêncio profundo. Depois, sobe ao palco e emita-nos, um a um; então apercebemo-nos dos nossos erros. Encolhemo-nos a um canto a observar os seus gestos ridículos, inadequados, que nos fazem cair na nossa realidade de atores desatentos ao todo da personagem. «Como é que alguém recebe uma notícia de traição com o ar de quem acaba de receber um convite para um jantar romântico, heim?» E eu… bem… não fui das piores, mas não fui melhor que ninguém. Durante todos esses dias, eu mostrara-me uma amante desapaixonada e sem fulgor. Sinto-me imbecil!

Ninguém reclama. Ouvimos e respeitamos, em silêncio, as suas palavras, ditadas por anos de estudo, de atuação, de encenação. Ele é fruto de uma vida no palco, o mestre que nos dirige e nós devoramos as suas palavras. Fala-nos de Stanislavski –, eu tinha razão – e de Augusto Boal. Entendo, de forma marcante, que não são as palavras que fazem o ator, mas sim a postura, a forma como se atinge o espetador com a mensagem que queremos transmitir. Podemos fazer um discurso brilhante durante uma, duas horas e, no entanto, o outro ator com apenas uma frase, ou um gesto, poderá ser a estrela que lança o seu brilho ao público.

Nesse dia, estamos sentados no palco e, de repente, sinto-me fora do contexto. É como se estivesse a flutuar, envolta pela visão de uma suave nuvem de fumo a envolver todo o espaço. Na plateia, vislumbro uma rapariguinha vestida com uma túnica cor-de-rosa e uma boina da mesma cor. Parece frágil e visualizo o seu rosto macilento. A imagem não é bem clara, sinto-me um pouco tonta e ela está como que ausente, a olhar para nós. O diretor parece-me gesticular em câmara lenta e a sua voz soa-me como se estivesse a murmurar. A rapariga continua no seu canto, uma presença estranha e alienada. Raramente se permite que se assista aos ensaios, a não ser para se fazer a apresentação aos media, antes da estreia da peça e eu não consigo entender a razão da sua presença.

Oiço o diretor referir a ‘Eneida’, mas a sua voz perde-se no espaço. Tento concentrar-me, mas os meus olhos vão cerrando aos poucos, e caio numa letargia inexplicável. O diretor sacode-me. Refere o meu ar abstrato e diz-nos que vamos terminar. Olho para a plateia e a rapariga já lá não está. Pergunto quem ela é e para onde foi, e ele fica confuso. Não viu rapariga alguma. Pergunto ao sonoplasta e ele diz-me que devo estar ‘pedrada’, a não ser que ela tivesse entrado pelo buraco que há meses existe no teto alto do velho convento, outrora abandonado.

Fico transtornada com os seus olhares de comiseração, como se eu tivesse pirado, e alguém se oferece para me levar a casa. Aceito.

Dias depois, no bar do teatro, converso sobre o assunto com alguém da produção. Faz uma confissão. O palco está situado em cima de uma cripta, onde repousam ossadas; porém, o que fariam também ossadas de bebés num convento supostamente de frades? Bem… conta que, por baixo, os túneis vão dar a um convento de freiras. Um pouco estranho, Não?! Alguns atores – diz-me –, têm visto figuras passeando pelo teatro, ele próprio, já tivera sensações de presença muito fortes. Lembro-me então que, anos antes, durante uma peça de Gil Vicente, sentira-me empurrada e caíra, durante o ensaio, em cima da tampa de uma tumba, retirado do próprio convento, e que era utilizado como parte de cenários. E não havia ninguém perto de mim, para me empurrar. O ator com quem contracenava, na altura, estava do outro lado do palco, a brandir raivosamente a sua espada, executando o seu papel de homem ciumento medieval. Engraçado, porém, é que ninguém tinha medo dos fantasmas que supostamente habitavam o teatro, nem mesmo eu, a quem deram a honra da sua visita. Mas afinal, que graça tem um velho convento, transformado num belo teatro, se não tiver os seus fantasmas? Se os ingleses e os americanos têm espetros nos seus castelos e conventos, porque não, nós? Ora!
5
Dia da Estreia. Retumbante. O drama, aliado à comicidade do papel da amante de um garanhão traidor, que já enganara a mulher com a sua própria irmã, suavizara-se. Não é fácil transportar a ousadia de Nelson Rodrigues para o palco sem ferir suscetibilidades com a sua verdade, a sua nudez de palavras, despindo a sociedade e exibindo-a com os seus pequenos e grandes pecados, que chocalham consciências e coexistem connosco. Incesto, miscigenação de parceiros, homossexualidade, desespero, e suicídio.
6
Segundo dia de atuação. Chego ao camarim compartilhado pelo elenco feminino e fico devastada com o que vejo. Está tudo desarrumado, a mesa de maquilhagem imunda, cheia de toalhetes esborratados de maquilhagem, batons partidos, e o espelho coberto de frases obscenas. Bem no centro, alguém escreveu ‘muito obrigada, adoro vermelho.’ – Entro em pânico. Olho à volta, e descubro que a minha bela e sensual roupa vermelha desaparecera, assim como as boxers, o soutien, e o meu kit de maquilhagem. Choro e recuso-me a ir para o palco. «Cancelem o espectáculo, estou sem roupa, ouviram? Não contem comigo!» É o pânico geral. Chamam o director e trazem-me um chá de flores roxas, que aprendi a tomar com uma cantora portuguesa de gabarito internacional. Eu assistira à sua estreia e a vocalista, nervosa, recusara-se a cantar sem o seu chá de flores roxas. Na altura, eu tinha atravessado o teatro onde ela atuara, no Chiado, com uma cafeteira para ir buscar água a ferver ao café do lado para que ela pudesse tomar o seu chá milagroso. A partir daí, passei a beber o chá de flores roxas antes de ir para o palco – (obrigada, querida, talvez tenhas ainda uma vaga lembrança, foi há tanto tempo!)

Os meus colegas suplicam que me acalme, o diretor entra de rompante, com os olhos em chamas e diz-me que se a roupa não aparece, vou nua para o palco e ponto final, senão cancela-se o espetáculo e ruuuaaa! – para sempre! Os outros atores tentam agora acalmar o diretor, pois o tempo vai escasseando. Já há gente no bar e no hall do teatro. O diretor atira-se a um velho baú, chispando, e retira montes de roupa que atira para o chão. «Qual é a cor do teu soutien?» «Que é que isto tem a ver?» «Mas dizes-me ou não?» «Tá bem, é branco, alvo e o meu fio dental também.» «Então, aqui tens este belo sari branco, alvo e transparente que combina na perfeição.» «Não quero, recuso-me! Costumo usar boxers rendadas, mas discretas, e agora vou com o rabo ao léu?» Vais, porque não és melhor que as fabulosas atrizes que já apareceram nuas em palco! Alguém as violou? Vestes-te imediatamente, ou vais à paulada para o palco, ou para a rua! Escolhe!» Embrulho o pano à volta da cintura. Até porque ele aparenta um ar perigosamente homicida. Entendo. O trabalho dele e de todo o elenco está em risco e o público não perdoa.
7
Recebo o meu amante à porta com aquela transparência esvoaçante e um wonderbra que quase me atira os seios contra o pescoço, de cada vez que levanto os braços para abraçá-lo. O público ri (não se rira na estreia com essa cena) e, por um momento, fico preocupada. Riso de prazer ou de ironia? Na hora do reboliço na cama, o meu colega entusiasma-se e acerta-me com uma grande palmada no traseiro, solto a gargalhada de cena, com uma certa raiva, pois não acho graça nenhuma a este ato inesperado e profiro as minhas falas infames com audácia, em gestos de sensualidade e, ao mesmo tempo, fingida ingenuidade. A cena mas forte, que mais me custa fazer, mais uma vez se desenrola. Estou de pé, na boca de cena (frente do palco) e olho directamente para o público ao mesmo tempo que falo da minha sexualidade, acariciando-me de forma provocadora. Estendo-me no palco, deixo as mãos deslizar pelo meu corpo, até que o meu amante chega e iniciamos um bailado erótico e hilariante (mais hilariante da parte dele), que executa um fogoso ritual de sedução tribal. No final da cena, parece que acabo de fazer uma terapia, um exorcismo, pois nos últimos anos, a minha autoestima tem andado a arrastar-se por vales e encostas.

O público ri tanto, que nós dois fazemos um esforço tremendo para não cairmos na gargalhada. À frente, está um indivíduo que me incomoda com o seu pigarrear, cruzando e descruzando constantemente as pernas, fazendo tudo para chamar a atenção. É difícil desconcentrar-me dele, pois durante os dois meses que a peça está em cartaz, o indivíduo não falta um único dia, senta-se no mesmo lugar e executa os mesmos gestos. Acabo por ignorá-lo, até porque, felizmente, não dá para definir os rostos dos espetadores porque permanecem na penumbra. As luzes direcionam-se para o palco e concentram-se no ator ou atores em ação.
8
O mistério da roupa desaparecida adensa-se. O secretário resolve falar com a Junta de Freguesia, que contratara vários grupos de fadistas e bailarinas na manhã desse sábado, para um espectáculo para a terceira idade. Foi preciso mais de um dia para tentar localizar todos os artistas e descobrir quem vandalizara e levara o meu belo fato, até que uma fadista revelou ter-lhe sido oferecido por um elemento do teatro. Após interrogatório rigoroso, o sonoplasta confessa que, quando uma fadista obesa lhe dissera que adorara a minha roupa, ele dissera-lhe na brincadeira que o levasse, porque sabia que seria impossível a dita fadista caber num modelo 38. Mal sabia ele que a cantora, por sua vez, oferecera o meu fato e a minha roupa interior a uma amiga, também fadista, e ficara com o meu kit de maquilhagem. Não conseguia localizar a amiga a quem oferecera o fato, e só cerca de uma semana depois me foi devolvido, após ter sido utilizado em espetáculos de fado vadio. Nessa altura, já me conformara com aquele trapo branco a embrulhar-se à minha volta com os meus requebros de ancas e com o meu platónico admirador, que, para piorar, no final da peça se plantava num canto do bar a observar-me com ar alucinado.
9
Como em todos os teatros, no final dos espetáculos, recebemos, por vezes, flores e bombons, e muitas pessoas do público esperam-nos para conversar. Ando de um lado para o outro a apresentar toda a gente a toda a gente, transformando aquele espaço num local animado até às tantas da noite. Contudo, o meu homem permanece no seu canto costumeiro, em silêncio, com um copo de whisky na mão, a fixar-me, barrando aproximações. Começo a receá-lo e viro-lhe as costas sempre que possível; mesmo assim, sinto-me atingida pelos raios emanados dos seus olhos aquilinos. Os meus colegas e amigos alertam-me para o facto de estarmos possivelmente perante um serial killer, ou um psicopata do género American Psyco. O tipo vigia cuidadosamente a sua vítima, neste caso, eu, até ao momento ideal para fazer de mim um rolo de carne, e outras barbaridades inimagináveis.

Durante dois meses, o tempo de duração da peça, ele está lá, até que desaparece no último dia como que tragado pela terra. Não o voltei a ver. Apesar dos macabros atributos que inventáramos, talvez não passasse de um pobre solitário que arrebatara a minha tresloucada personagem para dentro da sua vida vazia.

Maria Dhramamor