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sábado, 10 de julho de 2010

Memórias - Alda Lara


Foto: Google


Poeta (junho 1930-janeiro 1962) – Benguela (Angola)

Os seus poemas são melodias que serpenteiam no tempo. Palavras que nos entram no coração como mel e nos quebram a alma de tanta doçura. A vida levou-a cedo demais, aos 32 anos, e o mundo ficou mais pobre, como sempre fica, quando um ser precioso deixa de partilhar connosco o sublime encanto da sua alma.

Li os seus poemas, e quantas vezes chorei sem saber que era de contentamento, quando as suas palavras me embalavam o coração! Alda Lara continua a fazer parte do meu universo, dos sonhos que não quero que se desfaçam nas brumas do tempo.

Foi casada com o escritor e médico Orlando de Albuquerque (que tive o prazer de conhecer), que nunca deixou que o seu trabalho fosse esquecido, tendo publicado as suas obras póstumas. Também conheci os seus filhos (éramos todos adolescentes), tendo convivido com a dor da ausência de Alda Lara nas suas vidas. Ela não foi só poeta. Foi declamadora muito estimada, veiculando a poesia africana nos meios sociais de Lisboa e Coimbra. Em Angola, colaborou com vários jornais e revistas, tais como o Jornal de Angola, o Jornal de Benguela, ABC da Ciência. Licenciada na Universidade de Medicina de Lisboa e, mais tarde Coimbra, também mostrou as suas aptidões de conferencista, tendo sido editada a sua ‘Conferência sobre problemas da Assistência Médica Missionária em África’.

Foi membro activo da Casa dos Estudantes do Império, integrando assim a Geração da Mensagem, um movimento cultural constituido por jovens angolanos que buscavam uma cultura nova, de raíz angolana, através da literatura. A revista Mensagem foi um meio utilizado por escritores e poetas angolanos com o objectivo de transmitir uma nova consciência, opositora ao sistema sociocultural dominante, e entre eles, Alda Lara. Os seus poemas refletiam um grande amor por Angola 'Terra-Mãe' e suas gentes, e um forte sentido humanitário aliado à nostalgia -, a voz do povo africano no seu calvário colonial.

Após a sua morte, foi instituido o Prémio Alda Lara para a Poesia, em Sá da Bandeira, actual Lubango.

Sua obra: Antologia de poesias angolanas , Nova Lisboa, 1958; Amostra de poesia in Estudos Ultramarinos, n.º 3, Lisboa, 1959; Antologia da Terra Portuguesa - Angola, Lisboa, s/d; Poetas Angolanos , Lisboa, 1962; Poetas e Contistas Africanos , S. Paulo, 1963; Mákua 2, Antologia Poética, Sá da Bandeira, 1963; Contos Portugueses do Ultramar- Angola , 2.º volume, Porto, 1969; Livros Póstumos: Poemas , Sá da Bandeira, 1966; Tempo de Chuva , Lobito, 1973; Poemas, 1966, Sá de Bandeira, Publicações Imbondeiro; Poesia, 1979, Luanda, União dos Escritores Angolanos; Poemas, 1984, Porto, Vertente Ltda. (poemas completos)

Dois poemas de Alda Lara
Prelúdio
Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela...

Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guizos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.
Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...
Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...
Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...
Mãe-Negra não sabe nada...
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra!...
É que os meninos cresceram,
e esqueceram
as histórias
que costumavas contar...
Muitos partiram pra longe,
quem sabe se hão de voltar!...
Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
Bem quieta bem calada.
É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada...


Testamento
À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...
E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...
Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...
Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...

Maria Dhramamor

1 comentário:

Eliane Pontes disse...

Prezada Maria

Sou Mestranda pela Universidade do Estado da Bahia e minha Dissertação versa sobre a poética de Alda Lara. Infelizmente pouco se sabe sobre a poeta. Você poderia me ajudar neste sentido? Gostaria de saber mais coisas sobre esta grande poeta!

Abraços
Maria Eliane