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sábado, 7 de agosto de 2010

ISRAEL, BING BANG BUM!



M Dhramamor (autorretrato)

III-PROSCÉNIO DE (DES)VENTURAS (vivências no palco e suas consequências)

Aeroporto Internacional de Lisboa, junho de 1998 – Destino: Israel. The 5th International Festival of University Theatre ‘Thespis d’Or’.

Estamos eufóricos e muito atrasados. Gente apressa-se no tapete rolante numa obstinada corrida aos balcões para o chek-in. A minha colega arrasta uma mala enorme e eu sigo-a. A senhora da frente puxa um trolley e carrega um chiwawa de macacão e gorro, tão minúsculo, que quase desaparece no meio das suas minúsculas roupas. Ladra com uma vozinha esganiçada e sumida, e as atenções perdem-se à volta dessa pequena criatura. O animal tenta escapulir-se, a senhora desequilibra-se e tomba sobre a minha colega, que tomba sobre as malas, que tombam sobre mim. Agarro-me desesperadamente ao corrimão e fico pendurada, até que um cavalheiro me segura e impede uma queda fatal. A minha colega fica ruborizada e quase desata num pranto. Eu tremo de indignação, porque a senhora desaparece sem um pedido de desculpas, preocupada com a criatura irrequieta que continua a ladrar furiosamente.

Uma fila imensa para o voo 'AF 1924', escala em França, aeroporto Charles de Gaulle. Sento-me a um canto a observar o movimento. Estamos todos muito cansados porque fora difícil obter patrocínios para a viagem. Por outro lado, o pai da minha colega que quase fora esmagada por malas tinha aparecido à porta do Teatro, antes de apanharmos os táxis para o aeroporto, para amaldiçoá-la e ao resto do elenco, pelo nosso amor a uma atividade de ‘miseráveis’. A atriz mais nova, que ainda não tem 18 anos, viaja com autorização dos pais, e chora baba e ranho por ter abandonado a avó com Alzheimer para satisfazer a ambição de subir a um palco internacional, certa de que será castigada pelo seu contentamento. O diretor está atrasado. O seu assistente, ensonado, mal dormira, pois passara a noite a sacudir o esqueleto na 24 de Julho. Estou sonolenta e tensa, vítima de mais uma noite em claro, pois o meu namorado (da altura), semicareca, indigente e alcoólatra passara a noite embriagado a pular em cima da minha cama, atacado pelo complexo de Sansão, e arremessando-se continuamente contra a parede, na vã tentativa de assassinar um rival cabeludo imaginário.

O diretor acaba por chegar, ofegante. Finalizamos o chek-in e estamos na sala de embarque. Não falta muito para que a tensão se estenda a todos. Estou sentada ao lado do diretor e do assistente, em silêncio, absorvida pela discussão que, de repente, se trava entre os atores. Estamos sem paciência para intervir, e assim como começara, acabara a briga.

Embarque. Recuso sentar-me à janela e passo para o banco do meio. Todas as viagens de avião são, para mim, um pesadelo. Tento afogar a minha fobia bebericando pequenas garrafas de vinho (apenas duas), pois, de outro modo, seria catastrófico. Mas o método não funciona. Fico num estado de falsa apatia. De cada vez que surge uma turbulência, agarro-me ao banco onde estou sentada, como uma tábua de salvação. Divago sobre as indicações do voo. O colete de salvação, a máscara de oxigénio, as saídas laterais... Reparo na asa e imagino barbatanas a despencarem-se por todo o lado. Transpiro. Estou metida num recipiente gigante com toneladas de combustível e constituído por toneladas de metal. Se o avião se despenha, de que adiantam os coletes? E os tubarões? E a hipotermia? O suor escorre-me, mais uma garrafita de vinho, e o diretor manda-me parar. O assistente diz-me que beba, que assim durmo e não arruíno a sua paciência. Estou mal disposta. Tento ler ‘1934’ de Alberto Moravia: ‘Por essa razão, Beate não queria morrer por ter conseguido criar uma relação entre Nietzsche e Kleist, mas tinha conseguido criar uma relação entre Nietzsche e Kleist porque queria morrer’ – Uff! Que bela conversa!

Coloco o livro de lado.

França. Aeroporto Charles de Gaulle. Mal me sustenho nas pernas. «Un jus de fruit, s’il vous plaît, monsieur, merci beaucoup!» Voo direto. Mais horas de viagem, que horror! Quero voltar para Lisboa, quero ir para a minha cama!

Chegada. Shalom Tel Aviv-Yafo! «Olá, Telavive!» Aeroporto. Autocarro. Destino: Jerusalém. Chegada. Outro autocarro. Chegada. Estamos diante de um edifício em pedra como todos os outros, diferentes de tudo o que virámos até à data. Jerusalém não se iguala a lugar nenhum, é único e inesquecível. Seguimos o guia e atravessamos um longo corredor com dezenas de portas laterais, e finalmente chegamos a outro imenso corredor, com outras dezenas de portas laterais. Quase todos os atores que irão participar no festival Internacional estão lá instalados. Gente de patins a esgalhar pelo corredor, guitarradas, assobios, gritos em vários idiomas e eu quebro. Estou deprimida. Por favor, imploro, tirem-me daqui. O diretor abana a cabeça. «É aqui que vamos ficar durante 8 dias e 8 noites.» «Não vou aguentar!» Estou ressacada, desequilibrada, enquanto os meus colegas vibram de excitação. Mal pousam as malas e já estão no paleio com um guedelhudo patinador. Entro na nossa camarata e conto cinco beliches com duas camas, ou seja, terei que dormir com mais nove mulheres no quarto, incluindo as minhas três colegas. Abomino a ideia. O diretor, que a princípio se mostrara otimista, começa a aparentar sinais depressivos e quase não tem ânimo para proferir uma palavra que seja. Queremos fugir daí, mas os meus colegas mais jovens insurgem-se contra a nossa ideia de fuga. Adoram aquele ambiente ruidoso, e tencionam arranjar patins e fazer parte da equipa de patinadores. Finalmente, o diretor consegue falar com alguém da organização. E assim, vamos parar a um pequeno hotel, sem pessoal, porque é sábado, dia do ‘sabat judaico’. Quem nos atende é um dos patrões, que se encontra na receção, porque os outros trabalhadores são judeus ortodoxos e não trabalham nesse dia. Dá-nos roupa de cama e nós temos que as fazer. Está tudo desarrumado e dizem-nos que teremos que esperar pelos arrumadores no dia seguinte. Resolvemos fazer a limpeza dos nossos quartos, com dois beliches cada. Estamos famintos. Recomendam-nos o ‘Riff-Raff Café’, um sandwichbar na Hillel Street. Admito a simplicidade do diretor. Poderia ter ido para um hotel de qualidade superior, ou para uma residência particular, mas prefere permanecer com o elenco. O diretor é das pessoas mais simples que conheço, apesar de o seu trabalho ser reconhecido internacionalmente.

No dia seguinte vamos visitar a Universidade Hebraica. É lá que passam a ser as nossas refeições, gratuitas, e onde vai decorrer a maior parte do festival com grupos de vários países. Somos o único grupo de Portugal.

O ´Thespis d’Or´ teve início em 1992, promovido por esta famosa universidade em honra de Thespis de Icaria (sec. VI a.C), o primeiro ator e expoente máximo da tragédia grega, a interpretar um personagem, tendo supostamente inventado o teatro ambulante e a quem são atribuídas as primeiras peças escritas. O Dr. Isaac Benabu, diretor artístico deste projeto, dá-nos todo o apoio. Estudantes e membros do corpo docente aproximam-se para falar com Xosé Blanco Gil, o nosso diretor, que é formado em Filologia Românica, cultíssimo e um grande amante das Artes e das Letras, sendo ainda tradutor de obras clássicas e muito considerado por todos, sendo o facto, um grande orgulho para mim. Agarro-me a ele como uma lapa, pois esta terra fascina-me e quero ouvir tudo o que dizem sobre ela. Esta gigantesca universidade de várias áreas, nomeadamente medicina, zoologia, física, química, economia, engenharia e altas tecnologias tem, nessa altura, mais de 20.000 alunos, e possui quatro campus, escolas, faculdades e ricas bibliotecas, sendo o seu acervo de cerca de 5 milhões de livros. Entre 1925 e 1928, Albert Einstein, que fora presidente desta universidade, deixou um legado de cerca de 55.000 artigos do seu património. Dizem-nos que é uma das maiores do mundo. Autorizam excecionalmente a nossa entrada no templo, e emprestam um ‘kippah’ a cada um de nós, uma espécie de chapelito que cobre apenas o centro da cabeça, usado por respeito a 'Heloim' (Deus). É um ambiente calmo, uma energia vibrante. Lâmpadas simulando velas ardem junto a uma placa com letras douradas, com os nomes dos professores assassinados pelo regime nazi. Sinto um aperto no coração. Estamos todos comovidos.

Nos dias seguintes percorremos a universidade, circulando de autocarro. Estamos fascinados com os seus laboratórios e entusiasmados com os vários mercados de artesanato existentes nos seus edifícios. Descobrimos que existem estudantes de todo o mundo. Procuramos por estudantes portugueses e ninguém nos confirma a existência dos nossos compatriotas. Acabamos por conhecer algumas estudantes brasileiras, o que nos faz sentirmo-nos felizes por ouvir falar português. Somos bem recebidos, os estudantes são afáveis, e o corpo docente presta-se a apoiar-nos com informações interessantes sobre o trabalho da universidade. Nas ruas, abordam-nos, pois muitos sabem que viemos ao festival. A única coisa que conhecem de Portugal é o 'Benfica' e 'Eusébio'. Há uma diferença social incrível. De um lado, os judeus ortodoxos com o seu conservadorismo. Nos seus bairros não é permitido circular com partes do corpo à mostra, como braços e pernas, e muito menos com decotes. Quem o fizer, arrisca-se a ser apedrejado. Quanto aos judeus barbudos e cabeludos, nem sempre é assim. Nas ruas, estão expostos, para venda, chapéus já com barbas e suiças incorporadas, destinadas aos judeus ortodoxos, pois alguns até são carecas, pelo que nos dizem!

Contudo, a parte moderna é de uma inesperada exuberância. Gente linda, fashion. À noite, diversos palcos nas ruas, música muito atual, e… por Zeus! O pessoal abusa da moda – pegam nas suas roupas de ‘griffe’ e rasgam-nas, exibindo-as, tipo blusa só com uma manga, calças esfarrapadas com o traseiro à mostra, anéis nos polegares, tatuagens, piercings, cabelos coloridos… E nunca vi tanta gente de olhos verdes! Depois de desfilarmos nas ruas partimos para os bares – loucura completa! Discriminação sexual? Se há, não dou por isso! Reparo sim, numa miscelânea de homossexuais, heterossexuais, travestis, bissexuais, and so on... em bares específicos, que percorremos por curiosidade. Por outro lado, anda tudo eufórico, porque um transsexual chamado Dana Internacional ganhara há um mês atrás o festival da Eurovision com a canção ‘Diva’. Dança-se a ‘Diva’ em todo o lado. Somos desejados por homens e mulheres, por um lado, por sermos artistas, e isso causa-nos alguma confusão, mas depois passa a ser divertido. Uma jovem persegue-me apaixonadamente durante noites inteiras; sinto-me constrangida e deixo de aparecer no sítio; enfim, não me sinto preparada para responder a esses arremessos.

Os jovens têm uma cultura surpreendente, pois a ideia que tinha dos israelitas era completamente contrária. Apostam na educação e têm uma das maiores taxas de alfabetização do mundo. Falam vários idiomas com fluência. Rapazes e raparigas cumprem o serviço militar obrigatório aos 18 anos, sendo muitas delas patenteadas. Vemo-las circular pelas ruas, de metralhadoras, por vezes com roupas civis, quando há uma emergência. Cheguei a ver uma rapariga de minissaia e metralhadora ao ombro.

Alguns grupos apresentam-se na Universidade Hebraica, enquanto outros, num Teatro no centro de Jerusalém. O festival começa sempre no início da tarde, e prolonga-se por 4 dias. Circulamos de autocarro. Porém, um dia, atrasamo-nos, e quando chegamos à universidade, olham-nos surpreendidos, pois pensam que tínhamos morrido. É que, nesse preciso dia, o autocarro que costumamos apanhar, transportava um suicida a bordo e haviam morrido algumas pessoas, contando-se estrangeiros, entre elas. No dia seguinte, havia uma poça de sangue no chão, junto à paragem do autocarro. Não assistimos a nenhuma explosão, embora ouvíssemos inúmeras histórias, como a chacina no mercado que costumamos visitar, onde outro suicida havia causado várias vítimas.

Somos revistados em todos o lado, por militares ou civis armados: no supermercado, discotecas, lojas, e uma das vezes, somos revistados num minimercado de um português (o único que temos o prazer de encontrar) – uma festa!

Todos os dias vamos ao mercado à procura de água (caríssima), pois a água da torneira é intragável. Por outro lado, ando enjoadíssima. Nos três primeiros dias degluti barbaramente Shishlik, kebab, shishkebab, baklaweh, etc., como se fosse o último dia da minha vida, e ao quarto dia, fartei-me de vomitar. Não aguento nada no estômago. Gostamos de ir ao ‘Barood’, na Jaffa Road, onde se encontra boa comida israelita, bebidas exóticas e bandas de Jazz. O espaço é frequentado, na sua maioria, por artistas e jornalistas. Por vezes, vamos ao 'Mc Donalds' e 'Pizza Hut', ou outros locais de comida internacional; normalmente como fruta porque a minha úlcera tem reclamado. Na universidade, nos últimos dias, só consigo alimentar-me de melancias porque o resto da comida me enjoa; o cheiro, principalmente; e não entendo porquê, pois adoro comida israelita.

Todas as peças têm o seu interesse; noto que os palestinos apresentam peças que refletem toda a sua angústia. ‘The Palestinian Girl’ de Yehoshua Sobol, em hebraico, é perturbadora. Trata-se de uma história de amor impossível entre uma palestina e um judeu. Cenas de guerra, gritos e choro no palco, olhares de mágoa, revolta. Relembro a dolorosa realidade destes povos e agradeço ao Cósmico a minha liberdade. Também aprecio ‘Smoking‘ de Guy Tene, e embora seja também em língua hebraica, consigo interpretar a peça. Todos os países representam na sua língua e nós, obviamente, apresentamos as nossas peças em português.

No dia da minha atuação estou nervosa. A sala está repleta e perguntamo-nos de que forma chamaremos a atenção com uma peça clássica, com uma linguagem arcaica como a de Gil Vicente. Antes de entrar para o palco, vejo tudo andar à roda. Batidas cardíacas. Falta de ar. Esqueço-me de tudo, não me lembro de uma única palavra do texto; os meus colegas ficam solidários comigo, abraçam-me e dão-me beijos para me acalmarem. Mas porque é que dizem que se tem uma 'branca'? Vejo tudo escuro! Black! Nem sei onde estou! Entretanto, a peça começa. Os meus colegas estão no palco e chega a minha vez. Estranham eu não ter entrado, empatam, e oiço rir na sala. De repente, lembro-me de tudo: sou a Velha, a maldita, asquerosa e malvada Velha. Entro a correr e assumo a minha posição; entorto os olhos e inicio a minha atuação. O diretor contracena comigo, no papel do Velho, o meu vitimizado marido. Vira-me constantemente a cara e eu percebo que ele se esforça para não se desmanchar a rir; coço-me, estrebucho de tanta maldade e divirto-me com a cara dele. Quando entra o Parvo, sou eu que luto para não me rir e o público quase não nos deixa falar. Riem tanto que temos de elevar a voz, mas para quê? Os nossos gestos são hilariantes. Afinal, tudo acaba bem. Também apresentamos ‘A Lição’, de Eugène Ionesco, na qual não participo, e que arrebata um dos prémios. Estamos todos muito orgulhosos. Fartamo-nos de dar autógrafos e de responder a questões sobre Portugal, o Teatro, o Benfica, Eusébio, etc., etc.! Que sensação!

Visitamos o muro das lamentações. É uma zona cara. As casas viradas para o muro são dispendiosas. Outra das nossas visitas, a Massada, leva-nos a passar por zonas desertas. Vemos casas supostamente vazias, e uma barreira de arame farpado com militares. Estou em pânico. Lembro-me da guerra em Angola e fico aterrorizada. Agarro-me ao meu colega e tremo. Estou gelada e ele tenta acalmar-me com uma anedota obscena. Estão eufóricos quando os militares nos mandam parar. Só quem já passou por uma guerra sabe o que pode acontecer. Não estamos num país em guerra, mas estamos num país onde se faz guerra. Ainda bem que eles não têm noção porque, de outra forma, estariam como eu. Deixam-nos passar com o salvo conduto que o motorista apresenta.

Divertimo-nos em Massada. Aproveitamos para visitar o Mar Morto. É difícil mergulhar, pois é como se estivéssemos a mergulhar em óleo. Cadeiras flutuam na água e as pessoas sentam-se nelas como se estivessem num barco. Dizem-nos que não mergulhemos por causa do excesso de sal. Na verdade, não existe areia, mas sal. As pessoas estendem toalhas em cima do sal e deitam-se. De tempos a tempos voltam ao mar e metem-se debaixo do chuveiro para tirar o sal. Cometo o erro de mergulhar e ardem-me os olhos. Dizem-me que pode causar cegueira. Lavo os olhos que picam como agulhas.

Aeroporto, de novo. Os meus colegas passam o controle, mas eu e a minha colega mais nova, a que tem menos de 18 anos, somos detidas. Acusação: possíveis terroristas palestinianas, a monte. Temos os mesmos traços das fugitivas, alegam. A minha colega é uma bela rapariga, bem constituída, de longos cabelos até à cintura, olhos grandes, lábios grossos. Duas raparigas do corpo de segurança, armadas de metralhadoras, olham para ela e para a fotografia e cochicham entre si; depois levam-na. Eu tenho duas tranças compridas, e o cabelo ligeiramente arruivado, para o caso de ter que substituir alguma colega numa das peças, pois, no nosso teatro, normalmente sabemos os papéis uns dos outros. Acontece, por vezes, fazer dois papéis na mesma peça. Daí que, embora representasse a ‘Velha’, poderia também representar a ‘Constança’ do Auto da Índia, apesar dos meus traços africanos, se a minha colega, por algum motivo, não pudesse subir ao palco. A agente de Polícia olha para o meu passaporte e chama duas das suas colegas. «Não pareces a da foto!» «Sou atriz, tenho extensões.» Abrem a minha mala, despejam tudo. Falam-me em inglês. «Arranjáste amigos durante a tua estada aqui?» «Sim.» «Quantos?» «Vários.» «Onde? Oferecerem-te alguma coisa? Não? De certeza?» «Mas, porquê estas perguntas? Sou atriz! Estou a representar o meu país! Chamem o meu diretor!» «Se te oferecem bonecos, podem conter uma bomba. Se te oferecem perfumes, ‘Bum!!!’ - O frasco pode explodir! Eles fazem amizades para que possas ser correio, transportar uma bomba, entendes? Além disso, és suspeita!» «Please, let me go! S’il vous plaît, laissez-moi! Chamem o meu diretor!» Elas não querem saber, não importa em quantas línguas eu reclame. Fecham a minha mala e pedem-me que as siga, as três armadas, e eu estremeço. Lembro-me de Angola, da guerra, do que vivera e entro de novo em pânico. Os meus colegas apercebem-se da nossa ausência. Estão do outro lado, já passaram a Segurança. Grito. O diretor pensa que estou a fazer uma cena, mas quando dá pela ausência da nossa ‘mascote’ pede para falar com o chefe. Discutem, enquanto se ouve a última chamada. Conseguem ligar ao Cônsul português, e só assim nos libertam. Desatamos as duas a chorar e quando nos dirigimos ao avião, somos os últimos passageiros a subir a escada, antes que esta seja recolhida. Doce sabor da liberdade! Trepo a escada num ápice. Estou ainda assustada mas lá, no cimo, está Adónis. Por Zeus! Preciso urgentemente de desmaiar. «Oh, I feel so bad!» Adónis, o belo comissário de bordo, tenta apoiar-me e eu deixo-me encostar ao peito dele. «I feel so bad!» Mas o diretor destrói as minhas pretensões e fala-me em espanhol, como sempre faz, quando está aborrecido. Arrasta-me daí. «Te conozco bien!» Sento-me. Por Zeus! Estou sentada em cima de toneladas de gasolina e metida no meio de toneladas de metal. «Whisky, Please!»

Maria Dhramamor

1 comentário:

chnehring@gmail.com disse...

Sim, pode ser assim... mas nos como bons latinos, só enfiamos a mão em cumbuca se quisermos, não?