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domingo, 7 de novembro de 2010

Memórias - Josephine Baker

 
Fonte: Youtube


Josephine Baker (1906-1975) – EUA. Dançarina. Atriz. Cantora. Espia. Ativista. Mãe.

Josephine Baker nasceu a 3 de Junho de 1906 em Saint Louis, Missouri, com o nome de Frida Josephine Mcdonald. Foi a primeira artista negra a iniciar uma carreira internacional como cantora e como estrela de cartaz de cinema.

Filha da miséria, como a maioria dos negros nos EUA, na altura, viveu momentos pungentes, tentando sobreviver numa sociedade hostil em que gente da sua raça era menos do que nada. Símbolo indubitável de complexa miscigenação, nas veias corria-lhe o sangue de um pai desconhecido, supostamente branco, dos escravos negros e dos índios Apalaches. Nas ruas empoeiradas do Harlem, Josephine cantava e dançava descalça, sendo, desde cedo, motivo de atração. Com 8 anos, para ajudar a família, trabalhava como lavadeira em troca de muito pouco, enquanto seus dedos se rasgavam com o trabalho duro. Um dia, queimaram-lhe as pequenas mãos, culpando-a de não poupar o sabão que usava. Ostracizada, maltratada, sofrida, não desistiu. Procurava um lugar ao sol, mas o sol quando nasce não é para todos, pior ainda, quando se vive num país onde é crime ser-se negro.

Aos 13 anos, Josephine abandona a casa dos pais e integra um grupo de dançarinos de rua, a ‘Jones Family Band’, tendo-se casado com Willie Wells. O casamento pouco durou, e ela volta a Saint Louis e estreia no ‘Teatro de Washington Booker’ e no ‘Cotton Clube’, casas de espetáculos de negros. Dois anos depois, aos 15 anos, casa-se com William Baker, tendo herdado o seu apelido.

Entretanto, o racismo existente agravava-se com a violência da Ku Klux Klan, grupo constituído na sua maioria por brancos protestantes, que atingia cerca de 4 milhões de membros e atuava em linchamentos de negros, imigrantes asiáticos, católicos e judeus, tentando impedir a sua integração. Em Saint Louis, tal como em outras partes do Sul da América, executavam-se milhares de afro-americanos. Esgotada, Josephine Baker separa-se de William Baker e parte para Nova York, inserida num Musical negro da Broadway (1922). As suas habilidades artísticas são notórias e Caroline Regan, sua produtora, envia-a para Paris. Decorria o ano de 1925, Josephine Baker tinha 19 anos, que ficaram marcados pela sua estrondosa estreia no 'Théâtre des Champes-Elysées', em La Revue Négre. Não voltou para Nova York, pois, no ano seguinte, já era estrela na 'Folies Bergères' e no 'Casino de Paris'.

O espetáculo 'The Banana Dance' projeta-a irreversivelmente para a fama, ao atuar completamente nua, ostentando apenas uma saia de bananas, numa dança tribal plena de sensualidade e erotismo, dando início a uma gloriosa carreira. Josephine dançava com uma alegria exuberante, expressando audaciosamente a sua sexualidade numa mescla de requebros que trazem ao palco a sua herança cultural numa fusão de Jazz, Twist, Hip-hop, Breakdance e Charleston. O seu corpo expressa-se contorcendo-se, acompanhando os gestos com caretas faciais, arregalando os olhos, revirando-os, numa autêntica mostra de liberdade, expondo-se como um objeto de arte, seduzindo o público de forma atroz. 'The Banana Dance' abriu-lhe as portas a uma carreira que se prolongaria até ao resto da sua vida, enquanto a sua voz melodiosa era comparada à 'voz dos pássaros'. Nascera uma Diva.

Josephine torna-se uma mulher exuberante e sofisticada com o seu estilo próprio, caracterizado pelo cabelo curto e escorrido, os lábios grossos pintados de carmim, os olhos delineados, aumentando-lhe o brilho e o fogo sensual. A Europa vibra, os media agitam-se, e o poder da rainha aumenta. Milionária e poderosa, ela deixa de ter medo e o mundo passa a ser um desafio. Dá-se ao luxo de passear pelas ruas exibindo as suas extravagâncias, acompanhada pelo seu leopardo. É amada por homens e mulheres e transforma-se num padrão da moda.

No entanto, mesmo numa Paris aberta, os seus espetáculos causam protestos. Mas, que importava? Josephine Baker transformara-se numa das maiores estrelas do mundo e no símbolo da liberdade e da sensualidade, num tributo às suas raízes. Paris estava aos seus pés. E alcançara finalmente a liberdade que procurava.

Como viria a afirmar mais tarde, já no auge da fama, numa entrevista para a TV americana, era uma lutadora, abandonara St. Louis e partira para a Europa à procura da liberdade para aplacar o sentimento de inferioridade que sempre sentira, imputado pela supremacia branca.

Entretanto, os corredores de Paris fervilhavam de artistas e escritores de todo o mundo. A arte era suprema. O artista, idolatrado. Figuras como Pablo Neruda, Heminguay, Jean Cocteau, Le Corbusier, Léger, Alexander Calder, Christian Dior, entre outros, exaltavam a sua beleza exótica.

Em 1927 era a mulher mais fotografada do mundo. Para além da sua fama nas salas de espetáculos, o cinema projetou-a ainda mais alto com os filmes 'Zou-Zou' e 'Princess Tam-Tam'.

Em 1929 passa pelo Brasil, pela primeira vez, no 'Teatro Cassino', no Rio de Janeiro. O Brasil recebe-a de braços abertos e ela volta em anos seguintes a atuar em salas de espetáculo como o 'Copacabana Palace' e o 'Teatro Record'.

Em 1936 volta aos EUA cantando e dançando no 'Ziegfield Follies', mas o público rejeita-a com o seu racismo. A sua fama espalha-se por toda a Europa e Berlim acolhe-a com pompa e circunstância. Divide a sua vida entre os palcos de Berlim e Paris, mas o nazismo espalha os seus tentáculos e é de novo atingida pela discriminação. É vaiada em espetáculos e alguns jornais publicam títulos insultuosos à cor da sua pele. É acusada de atentado contra a moral, e durante as suas atuações são celebradas missas para afastar o mal que ela representa. Dececionada, regressa definitivamente a Paris.

Durante a segunda guerra mundial Josephine teve um forte papel na Resistência, como espia, tendo sido altamente condecorada pelo presidente Charles de Gaulle, com a Medalha e a Cruz de Guerra da Resistência, e a Medalha da Legião de Honra. Foi ainda membro activo da Cruz Vermelha Francesa e auxiliar da Força Aérea, tendo permanecido em Marrocos, de 1940 a 1944, desempenhando um papel fulcral no apoio às tropas francesas. Também se regista a sua passagem por Portugal nas suas actividades de espionagem, a favor da Resistência.

Após a guerra, Josephine está cansada e precisa desesperadamente de uma família. Em 1950 inicia a sua ‘Tribo Arco Iris’, adotando 12 crianças de várias raças e países, que cria no seu castelo, em França, sendo este ato um declarado protesto contra a segregação racial. Perante a sua falência, vê-se sem casa e em vias de perder a custódia dos seus filhos adotivos. A princesa Grace de Mónaco apoia-a, oferecendo-lhe uma vila em Mónaco, para onde se mudam.

Em 1951 aceita o convite para espetáculos em Nova York e é recebida por milhares e milhares de americanos, apinhando as ruas. Continuam a existir salas de espetáculos de negros, mas só para brancos, ou segregados. Josephine insurge-se recusando atuar em locais como esses. Exige que negros e brancos se sentem lado a lado e manifesta-se contra o racismo, em discursos polémicos. É acusada de comunismo e de simpatias fascistas. Num restaurante célebre, Josephine é expulsa, e Grace kelly, que se encontrava presente, alia-se a ela e saem de braço dado, num gesto de protesto. Apesar da fama, continuava a ser impedida de entrar em locais para brancos. Foi a gota de água. Amargurada, deixa os EUA e volta para Paris que sempre a acarinhara. Casa-se com Jean Lion e adota a nacionalidade francesa.

Em 1960 desloca-se a Portugal, a convite da RTP, 'Estúdios Lumiar', para participar num programa de vedetas internacionais. Diretamente de Paris, Josephine surge plena de glamour, entre plumas e brilhos. Abre o espetáculo cantando ‘Paris Mês Amours’, espalhando o encanto da França moderna. Sabendo da situação das colónias portuguesas, e como activista na Liga Internacional contra o Racismo e o Anti-semitismo, traz no seu repertório uma canção composta em 1943, pelo compositor brasileiro Ary Barroso 'Terre Sèche', pura intervenção política, e profere algumas frases que evidenciam a sua luta pelos direitos civis. Estranhamente, a Censura não interfere. De qualquer modo, a sua mensagem não é compreendida pelo grande público português porque o programa não está legendado.

Já antes havia sido apanhada a circular nas ruas de Lisboa quando o paquete em que viajava aportara em Lisboa. Apesar de camuflada, fora reconhecida por alguns jornalistas, que fizeram efusivos elogios à ‘Deusa de Ébano’, ‘Vénus Negra’ como era conhecida, ou o ‘Demónio Dançante’ como foi cognominada por um jornal nacional.

Dando continuidade à sua luta, Josephine alia-se ao trabalho de Martin Luther King na luta pelos direitos civis dos negros e mestiços de todo o mundo.

A sua vida foi intensa, somam-se as paixões em todos os seus aspetos, nomeadamente pelos homens, resultando em 6 casamentos com figuras do panorama nacional e internacional como o Conde Pepito de Abatini, Jean Lion, Joe Bouillon, Robert Braddy.

Só em 1973 Josephine foi recebida nos EUA por um público multirracial, atuando no 'New York´s Carnegie Hall'.

Em 8 de Abril de 1975, Josephine atua pela última vez no 'Teatro Bobino de Paris' e a 12 de Abril morre, aos 68 anos, em Paris, com uma hemorragia cerebral. Robert Braddy, seu último marido, permanecera ao seu lado até ao último sopro da sua vida. O seu funeral decorreu na presença de milhares de pessoas, com honras militares do Estado Francês, e o seu corpo repousa no cemitério de Mónaco, em Monte Carlo.

Com o seu racismo desenfreado, a America rejeitara um ícone mundial que alterou profundamente a concepção artística, dando-lhe uma vasta dimensão, num mundo limitado por preconceitos.

Josephine Baker deixa-nos um legado único, e por mais que tentem copiar-lhe os gestos, o seu talento e a sua sensualidade, será sempre única. Ela foi Arte, ela foi Humana, ela foi Universal.

Maria Dhramamor

Fonte
Youtube – vídeos – Chasing a Rainbow: The Life of Josephine Baker (consultado em 2010.05.27)
Wikipédia – http://en.wikipedia.org/wiki/josephine_baker (consultado em 2010.05.27)
www.blittz.aeiou.pt – Josephine Baker em Portugal (consultado em 2010.05.28)

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