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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Música - Eneida Marta

ENEIDA MARTA – Guiné Bissau (África)

A VOZ QUE AFAGA A ALMA
 Uma noite estrelada. Uma poncha*. Um aprazível suspiro. Uma canção. Era tudo o que eu queria naquele momento. Uma saudade intensa toma-me de rompante. Aquela voz a ecoar numa estação de rádio escolhida ao acaso, aquela voz que eu não conhecia, acabara de transformar aquele instante num momento só meu, intemporal, único, repleto de paisagens africanas que eu via desfilar na minha memória. Que bom ter descoberto Eneida! Não… não falo de ‘Eneida’ de Virgílio, mas da nossa Eneida africana, mulher feita poema.

Quando Juca Delgado, um dos mais conceituados produtores de música africana em Portugal descobriu a voz fascinante de Eneida Marta, valorizou-a, ciente do seu valor artístico.

Nos seus concertos, Eneida espalha encanto, despertando uma mescla de emoções que nos trazem saudade e contentamento, vontade de requebrar o corpo ou simplesmente de ficar quietos, numa prazenteira preguiça. Na verdade, a música sempre a seduzira, desde criança, pois nascera no seio de uma família de artistas. Familiarizara-se com os palcos participando em concursos infantis, deliciando o público com a sua voz de menina talentosa.

São vários os estilos que caraterizam as suas canções, que vão desde o Gospel, Jazz, Gumbé, retoques de Flamenco, ao Singa, Tina, Djanbadon, enfim, uma macedónia de ritmos extraordinários. Canta em vários dialetos e línguas, nomeadamente em mandinga, português, futa-fula, criolo, fula; e sempre com Juca Delgado por perto, numa brilhante cumplicidade.

“Nô Storia”, o seu primeiro álbum (2001), editado pela ‘Maxi Music’ e produzido por Juca Delgado foi o início da sua projeção artística, com uma tournée por vários países da Europa e África, incluindo Guiné-Bissau, onde foi recebida com todo o carinho que um povo deve dedicar a um filho da terra. Depois de “Amari” (2002), produtoras como a JPS Production (França), Club Star (Alemanha), Putumayo (EUA), promovem a sua carreira internacional e o seu nome passa a ser alvo de críticas auspiciosas tanto da parte do público como dos media. E assim, Eneida é convidada a participar em diversos programas, com presença marcante no ‘Inside África’, transmitido pelo canal televisivo CNN International.

Em 2005, Eneida arrebata o primeiro lugar na categoria de World Music com "Mindjer Dôlce Mel", num concurso realizado em Portugal. Foi, anos depois (2008), seleccionada pela WOMEX 2008 (World Music Expo), um dos maiores eventos de World Music, para integrar a sua programação oficial, entre centenas de artistas oriundos de várias partes do globo.

Através de Juca Delgado, Eneida participou em produções com artistas reputados como Bonga, Rui Mingas, Manecas Costa, Dulce Pontes, Uxia, e ainda Aliu Bari, precursor da música moderna da Guiné, entre outros artistas de renome.

Radicada em Portugal, Eneida tem vivido um pouco por terras africanas como Angola, Moçambique e, claro, Guiné, o exótico país onde nasceu.

+ Informações sobre Eneida:     
www.myspace.com/eneidamarta
http://www.myspace.com/martaeneida
http://www.griotsound.com/webeneida/default.asp
http://angolanavoz.blog.com/


*poncha – bebida típica da região de Câmara de Lobos, Ilha da Madeira, à base de aguardente de cana de açúcar, mel, sumo de limão, podendo ainda ser utilizadas outras espécies de frutos como maracujá ou laranja.

Maria Dhramamor

sábado, 2 de julho de 2011

Lembra-se de Andressa Cardoso?

 

Título: TÔ LEGAL (mp.3)

Mais um lançamento da menina-maravilha de Tangará da Serra (Brasil)

Uma beijoka e muita sorte, Andressa! Não desistas!



sábado, 11 de junho de 2011

Sociedade - OKUPAS

 Fonte: Youtube


Quando o movimento 'okupa' o vazio...

Okupas? Brrr! Vadios, escumalha, miseráveis, etc, etc, etc…

Quando se fala em Okupas, associa-se à vadiagem, ociosidade, desordem. A palavra okupa deriva da palavra ‘ocupação’ e, na verdade, os okupas ‘ocupam’, não no sentido de vagabundagem, mas sim, manifestando o seu anarquismo, que, contrariamente ao que a maioria pensa não tem a ver com desordem, mas sim, ausência de coerção, de imposições.

Os Okupas são um movimento libertário formado por anarquistas, revolucionários, ecologistas, hippies, punks, entre outros movimentos de contracultura, que se manifesta contra a especulação imobiliária, consumismo, burguesia e autoridade. Instalam-se em espaços devolutos, sem permissão dos proprietários e tentam recuperá-los através da renovação física e animação, promovendo a sociabilização com atividades culturais e lúdicas, num contexto de igualdade social.

O seu slogan contestatário ‘tanta casa sem gente e tanta gente sem casa’ – justifica esta atitude, vista, de forma geral, como violação de domicílio ou perturbação da vida privada, ou seja, um ‘crime’ perpetrado contra o Sistema. No entanto, em alguns países cuja lei tolera esta ação, poderá haver cedência por parte de proprietários, estabelecendo-se un intercâmbio, em que, perante a ocupação, os ‘okupantes’ se encarregam da preservação do espaço.

Em Portugal, este movimento teve início no Porto, nos anos 90, e tem-se espalhado por todo o país, com forte incidência nos centros urbanos. Alguns okupas como Paula Parreira (Cascais), Miguel Rosas (Sacavém) e Zé Pedro foram dos primeiros a dar a cara aos média. Miguel Rosas fundou um pequeno centro cultural com ateliers de pintura e fotografia frequentado por alguns jovens, dinamizando assim o espaço que se encontrava em degradante estado de abandono.

Este movimento, em expansão pelo mundo, tem sido fortemente reprimido por forças de intervenção policial, tendo-se registado continuamente ocorrências que têm provocado manifestações não só por parte de okupas como de populares que apoiam as suas ações.

Em Lisboa, A Kasa Enkantada foi demolida sob fortes protestos, em 2002. Célebre pelos seus concertos, biblioteca, cursos de culinária vegetariana, entre outras atividades, oferecia ainda refeições por apenas 1 euro, para além de serem manifestamente contra a droga. Várias bandas portuguesas foram associadas a este movimento, fonte de motivação para muitos jovens, alguns dos quais, sem rumo.

Outro centro de Okupas que se notabilizou foi a Casa das Atochas, em Corunha (Espanha), onde se promoviam atividades de lazer, culturais e políticas, sendo a propriedade de um abastado cidadão que mantinha o local abandonado. O espaço foi encerrado a 12 de abril de 2011. A situação tem desencadeado diversas manifestações da parte de Okupas e simpatizantes.

A 10 de maio de 2011, a escola primária do Alto da Fontinha, no Porto (Portugal), abandonada há 5 anos, onde o movimento desenvolvia projetos educativos no bairro promovendo atividades escolares e lúdicas foi invadida pela polícia, com vista ao seu encerramento. Os jovens queixaram-se da violência policial e das agressões com que foram expulsos. Cerca de 50 pessoas, nomeadamente professores davam aulas gratuitas a crianças. O grupo apresentou uma queixa-crime contra a Câmara do Porto e fomentou manifestações pacíficas (musicais) para chamar a atenção da comunidade. Apoiados pelos moradores, garantem que a luta vai continuar neste ou noutro espaço. Foram detidos sete okupas.

Em Inglaterra são chamados de ‘Squatters’, e em Londres, este movimento ocupa casas nos bairros de elite. Patrulham casas vazias e se ao fim de 3 meses não aparece ninguém, ocupam o espaço, incluindo os edifícios da Coroa. Em Londres, o 'Squat 121 Center', após 18 anos de ocupação, foi encerrado em 1999. Revolucionários e ecologistas que ocupavam o local procuravam alternativas no sentido de apoiarem os desafortunados sociais, não se coibindo de pesquisar o lixo de feiras e supermercados para aproveitar excedentes, transformados posteriormente em alimentação para centenas de pessoas carenciadas.

Espanha atingiu, nos anos 60 e 70, o apogeu da ocupação de espaços abandonados, embora só nos anos 80 adoptassem a designação de Okupas.

A Holanda aplicou recentemente uma lei que prevê até 2 anos de prisão por ocupação indevida. No entanto, existem cerca de 1.000 edificios ocupados ilegalmente. Aqui, os Okupas são chamados de ‘Krakers’.

No Brasil, os squatters surgiram nos anos 90. Celebrizaram-se em Curitiba, a ‘Kaazaa’ ; em Porto Alegre, a ‘Kasa da Kultura’. Em Curitiba, o ‘Squat Payoll’ distribui livros e outros artigos ‘krakers’ em apoio aos anarquistas sem-teto de Amsterdão.

Os squatters fazem circular os ‘zines’, jornais artesanais de pequenas tiragens, e mantêm contactos nacionais e internacionais para veiculação da informação sobre o movimento.

Símbolo Okupa


Tanta casa sem gente e tanta gente sem casa’ - o Sistema antepõe os seus interesses, mergulhado na indiferença. ‘Gente sem casa e casas sem Gente’ desfeiam, agridem e ferem o cotidiano do mundo.

Mais informações em:

Maria Dhramamor

sábado, 2 de abril de 2011

ARTES - Kseniya Simonova

Fonte: Youtube 'Kseniya Simonova' desenhando na areia, no programa televisivo Ucrânia Got Talent

da Ucrânia, com amor

KSENIYA SIMONOVA – Evpatoriya-Criméia /Ucrânia (n.1985)

Era uma vez uma menina, que descobriu que os seus pequenos dedos copiavam a vida de todas as vezes que deslizavam sobre qualquer coisa.

Era uma vez uma menina, que se chamava Kseniya e cujo nome se espalhou, um dia, pelo mundo.

Filha de um militar e de uma pintora e cenógrafa, começou a desenhar com os dedos ainda criança. Sonhava com desenhos fantásticos e traduzia as suas lembranças oníricas de forma incomum, inquietando os seus pais que, cientes das dificuldades dos artistas, não queriam que ela fizesse do seu talento um meio de vida. Contudo, Kseniya frequentou a Escola Artística e de Belas Artes. Traduziu obras de autores clássicos como Shakespeare, Lord Byron e R. Burns, para além de poesia popular, baladas e canções folclóricas inglesas.

Kseniya é mais uma descoberta promovida pelos meios televisivos, tendo vencido o concurso 'Ukraine’s Got Talent', em 2009, ao retratar, através de desenhos animados na areia, os horrores da segunda guerra mundial no seu país, arrancando lágrimas e aplausos da audiência (e lágrimas minhas).

Quando estudante, Igor Paskar, editor de revista e director de Teatro, viu-a numa discoteca e fotografou-a para a sua revista ‘Extraordinary People’. Um ano depois, reencontrou-a, casaram-se e foram pais de um menino. Como não acredito em coincidências, creio que não foi por acaso que a revista entrou em colapso provocando uma alteração radical nas suas vidas. Em face da crise financeira que atravessavam, o casal procurou por todos os meios uma forma de sobrevivência. Igor incentivou-a a prosseguir com os desenhos na areia, mas ela não encontrava no seu país, nem areia de mar nem de rio apropriada à sua criatividade, acentuando-se o seu desânimo de dia para dia. Igor apoiou-a com equipamento que permitiu filmar os seus trabalhos sob uma superfície de vidro e propôs-lhe a apresentação dos mesmos aos media. Sonhou por ela e acreditou que, um dia, a sua mulher seria reconhecida, mas ela achava-o um idealista porque, no fundo, não ousava sonhar tão alto. Durante 3 meses, Kseniya trabalhou dia e noite tentando encontrar o âmago da sua arte. Quando se sentiu pronta, Igor convenceu-a a entrar no casting para os 'Got Talent'.

Existem coisas que não podem ser impedidas porque o espírito se sobrepõe a tudo, não permitindo obstruções. E assim, foi revelado o seu talento incontestável. Kseniya, sem qualquer instrumento de apoio, utilizando apenas as mãos, e numa rapidez surpreendente, modela uma série de desenhos sequenciais na areia, retratando factos da vida, contando histórias que nos atingem a alma.

Hoje, Kseniya Simonova conta-nos histórias que não passam pelo papel, nem saem da sua boca. As suas histórias brotam-lhe da alma, sem palavras, bastando-lhe os gestos para nos fazer refletir e chorar.

Maria Dhramamor

segunda-feira, 21 de março de 2011

Enquanto Dormes

Por: Maria Dhramamor
 fotografada por : Sofia Gonçalves

Oiço o teu respirar

Na madrugada
Ébria,

E desperto

De desejo, atordoada.

Cheiro o teu cabelo,

Mordo de leve o teu pescoço,

Conto as rugas do teu rosto...

Revelam segredos

Que não ouso saber...

Deslizo meus mornos dedos

No teu peito forte,

Bebo teus suspiros

Como vinho de veludo.

Toco as tuas coxas,

E minhas mãos

Entorpecem

No teu sexo que desperta.

E sinto o mar

A penetrar

Na concha aberta

Que te aguarda húmida.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Entrevista - Sofia Gonçalves (fotógrafa)

 
Sofia fotografando

As gémeas de Sofia, fotografadas pela artista

Foto de Sofia, refletindo uma paisagem num riacho

Por: Maria Dhramamor
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´Contrastes' de Sofia

Fotografar não deveria ser apenas um gesto. O artista fotográfico junta a sua técnica individual a uma sublime sensibilidade. Rouba o sonho à realidade e torna-o eterno, uma mensagem que permanece e que mal fechemos os olhos nos lembra de alguém ou de algo: uma paisagem, uma pedra, uma folha seca esvoaçando, um triste olhar, uma alegria infundada. Seja o que for que se retrate, fotografar não deveria ser apenas um gesto.

Sofia é daquelas pessoas cujos trabalhos, em seus ‘contrastes’, nos prendem o olhar. Em Colares, na ‘Contrastes’, o estúdio que divide com o músico/produtor Paulo Lorga, seu marido, Sofia desliza entre clientes apressados e outros que lhe dedicam horas de conversa pela sua simpatia envolvente, o brilho intenso dos olhos alegres e o sorriso genuíno. Além disso, Sofia é mãe de gémeas, sai para reportagens, enfim, uma mulher de vida agitada e imparável.

Sofia é portuguesa, frequentou o ARCO - Centro de Artes e Comunicação Visual, em Lisboa, e fez um estágio em Cinema, no filme ‘Mariage Mixte’, do realizador francês Alexandre Arcady, para além de fotografia de cena (teatro). Dedica uma grande parte do seu tempo à fotografia social.

No seu estúdio, pude ver a belíssima colecção de fotos desta artista, que merecem estar expostas nas paredes de uma galeria ou publicadas em livro, para que o público possa sentir a emoção que é contemplar trabalhos como este.

A CONTRASTES fica mesmo à entrada de Colares, num cantinho acolhedor, em direcção às belas praias da zona de Sintra.

Entrevista
M.D. - Porquê fotografar?

S.G. - Faz bem à Alma e ao corpo quando há um envolvimento mais que físico da máquina e do fotógrafo na captação das imagens; e as coisas fluem, passamos a outra dimensão – é esta criação que alimenta a ALMA. Depois é como um vício que vai crescendo.

M.D. - Que conceitos definem o seu trabalho fotográfico, numa sociedade em que a fotografia digital se banaliza diariamente?

S.G. - A verdade é que a fotografia tem neste momento esse panorama de banalidade. Compete-me a mim, como profissional, desmistificar essa banalidade e tentar mostrar que não basta clicar para se ter bons resultados. Penso que temos de nos adaptar ao novo mercado e fazê-lo também em Prol de um crescimento pessoal, encarando as mudanças com algum otimismo e tentando moldar o meu trabalho de acordo com a nova realidade.

M.D. - Como se sente no meio fotográfico português?

S.G. - O meu trabalho é um trabalho muito individual, parte de uma envolvência naquilo que estou a fazer naquele preciso momento e a energia que consigo captar; só assim consigo tirar partido dele. Confesso que vivo um bocadinho à margem do meio fotográfico… Às vezes gosto de estar à margem (risos). Acho que cada um de nós tem de construir algo, nem que seja no nosso Mundo, e isso irá com certeza projetar-se de alguma forma, seja ela qual for. Penso que o melhor é deixar fluir, percebendo as tendências, mas desenvolvendo sempre o nosso trabalho de acordo com as nossas convicções e gostos. Essa liberdade faz-me sentir bem.

M.D. - Acha que o seu trabalho é reconhecido?

S.G. - O meu trabalho é reconhecido a partir do momento em que as pessoas me procuram uma vez e voltam; o meu trabalho é reconhecido quando vejo um sorriso, alguma sensação com as imagens que captem delas e, no final, o meu esforço é recompensado com esse reconhecimento individual… Nesse aspecto, acho que tenho reconhecimento.

M.D. - Tem um estúdio fotográfico aberto ao público, faz reportagens, é casada, mãe de gémeas… Como consegue conciliar a sua profissão com o ato de ser mãe?

S.G. - Na verdade, se tivesse que numerar aquilo que sou, sem dúvida que ser mãe é o meu numero 1 que se reflete em todos os outros. O Paulo tem sido a outra parte de mim, sem o qual, não teria conseguido nada, portanto, penso que na vida tudo gira e flui de acordo com as coisas que nos envolvem e às quais nos entregamos, neste caso, sou entregue de alma e coração a tudo o que tenho, daí umas vezes melhor que outras. Consigo conciliar tudo com algum sucesso.

M.D. - Qual a sua fonte de inspiração?

S.G. - As filhas, a Natureza, o Amor, a vida e o que dela consigo tirar, as pessoas, a sociedade.

M.D. - Gostaria de citar algum fotógrafo cujo trabalho a tenha particularmente impressionado?

S.G. - Penso que seria interessante citar um fotógrafo português que conseguiu reconhecimento a nível internacional, que se chama João Carlos, e está neste momento sediado nos EU, onde desenvolve trabalhos muito criativos dentro do mundo da Moda. O que gosto particularmente no seu trabalho é o toque de Arte e profissionalismo que encontro em todas as suas imagens.

M.D. - O Paulo Lorga, seu marido, é músico. Portanto, ambos são artistas. Têm projectos juntos, por exemplo, existe a possibilidade de associar os seus conteúdos fotográficos à criação musical do Paulo?

S.G. - No EP que o Paulo lançou e tem na Internet, a capa e toda a imagem foi concebida por Nós, em conjunto, de acordo com o conceito do próprio álbum. Temos também um projecto em comum para uma exposição que, neste preciso momento, se encontra parado, mas dentro em breve gostaria de concretizá-lo e que tem essa combinação MUSICA/IMAGEM. É uma visão social em vários espaços, será aliciante esperar o resultado.

M.D. - E o seu lema é…

S.G. - Ir ao SABOR do Mar…não vivesse eu perto DELE.


INFORMATION/ INFORMACIÓN/ INFORMAZIONI

SOFIA GONÇALVES

PAULO LORGA

ENGLISH – This Portuguese photographer shows us a work characterized by soft contrasts representing her passion for people and landscapes. She divides her studio in Colares, Sintra, with her husband, the musician/ producer Paulo Lorga.

FRANÇAIS – Cette photographe Portugaise nous montre un travail caractérisé par doux contrastes représentant sa passion pour les gens et les paysages. Elle partage son studio, à Colares, Sintra, avec son mari, le musicien et producteur Paulo Lorga.

ESPAÑOL – Esta fotógrafa Portuguesa nos muestra una obra caracterizada por suaves contrastes en representación de su pasion por la gente y los paisajes. Ella comparte su estudio en Colares, Sintra, con su marido, el músico y productor Paulo Lorga.

ITALIANO – Questa fotografa Portughese mostra un lavoro caratterizzato da un delicatto contrasto che rappresenta la sua passione per le persone e paesaggi. Divide el suo studio a Colares, Sintra, com il marito, il musicista e produttore Paulo Lorga.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A GRANDE TOURADA

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Por: Maria Dhramamor
Proscénio de (des)venturas IV - Vivências no Palco e suas consequências

Ano de 1998, de um dia qualquer… O anúncio terá que ser gravado nesta manhã de inverno em que o Sol espreita e foge. É um anúncio festivo, de verão, de gente feliz, portanto, é imperioso que o glorioso astro nos brinde com o seu brilho. De outra forma, não haverá gravações.

Este lugar parece-me uma imensa bola de sabão, cheia de mariposas estonteantes, pronta a desintegrar-se no espaço. Não é um lugar comum. É uma praça de touros fedorenta e fria, onde as escadas húmidas da geada congelam qualquer traseiro, incluindo os mais anafados. Estamos sentados nos degraus gelados, simplesmente à espera; o absurdo da espera… ‘À Espera de Godot’ ... (Samuel Beckett).

Gosto de contemplar o mundo que me rodeia, gosto de guardar para mim os mais ínfimos pormenores da vida. Que mais poderia fazer, senão observar, naquele momento de impassibilidade?

Entretenho-me a caricaturar as personagens arlequinadas de rostos arroxeados pelo frio e vestes garridas; sou mais uma, entre essas excêntricas criaturas inventadas à pressa; mais uma a viver estranhos momentos à sua própria vida. Apercebo-me de algumas conversas que poderiam ser tema para uma tragicomédia de sucesso, como por exemplo, a mulher opulenta que se gaba de ter enterrado três maridos, ou do casal de velhotes impudicos que, entre beijos ruidosos, falam dos tempos em que a fornalha da paixão era o fulcro das suas agora decrépitas vidas. Ah, mas a mocinha de azul prende-me a atenção pelo seu olhar cândido, envolta no fulgor de quem aguarda o momento crucial da sua lacónica existência. A diva decadente também lá está, com um vislumbre de beleza na frouxa luz do olhar, de sorriso ensombrado pela ausência de dentes.

Todos me parecem figuras de um circo gigantesco flutuando dentro de uma descomunal bola de sabão. E eu? Eu não passo de uma dessas figuras, enredada dentro do grande circo.

Uma versão adulterada de Al Capone vem despertar-me do torpor em que me encontro. Espreito-lhe o rosto caraterizado, o chapéu, a gravata amarela às riscas e o lencinho amarelo gema-de-ovo enfiado no bolso do casaco, em contraste com o fato esverdeado e paro abismada. E, claro, o charuto na mão… Observo aquela ímpia figura gangsteriana e não me impeço de fazer um descarado comentário à sua gravata; e ele retribui com uma observação acalorada à minha figura. É que, tal como o resto dos participantes, tenho uma aparência, no mínimo, estrambólica. Fala-me da sua vida agitada de produtor, que numa emergência se mistura com atores e figurantes para preencher uma vaga (o ator estava doente); e fala-me do cãozinho que deixara em casa com a pata quebrada, e fala-me, entretanto, de episódios felizes. E convida-me para ser o seu par, não via eu que quase todos formavam um casal? Faríamos uma contracena em grande plano… Ah, bom?! E a menina dos olhos cândidos? Não estava ela só? Uma das poucas exceções… - diz-me.

O Sol vence a nuvem e raios brilhantes surgem no seu esplendor. A produção alegra-se e nós, os desesperados, observamos a sua súbita alegria. Entra o touro, ouvem-se assobios. Ao fundo, está um célebre toureiro vestido a preceito, de farpela rosa coberta de arabescos e brilhos e de capa vermelha na mão. É a figura fundamental do ato, contratado para fazer publicidade a pastilhas milagrosas para a gripe. Tosse, espirra, pigarreia e avança bamboleando o corpo esguio em direção ao touro, pois, com as ditas pastilhas que acaba de ostentar, não há doença, nem touro, nada que o vença! Alguém levanta um cartaz com as palavras a entoar e indica-nos quando deveremos gritar o habitual ‘olé’; e preparamo-nos para o ensaio. O bicho parece aturdido mas, repentinamente, vira-se na direção dos equipamentos da filmagem como uma estrela exaltada e avança derrubando um tripé com uma máquina fotográfica; entretanto, o cameraman consegue salvar a sua câmara, mas o resto da equipa tenta é salvar a pele. Tal como os outros, pulo uma cerca e trepo pela bancada acima, numa velocidade que nunca imaginei atingir. O animal dá marradas em tudo e o toureiro perde o seu encanto, fugindo no meio da debandada. Al Capone tenta proteger-me, mas acaba por dar à sola à minha frente.

O Sol volta a esconder-se. Os funcionários da arena perseguem o touro e conseguem enfiá-lo numa das portadas e isolá-lo. Há que montar todo o cenário de novo, voltar a ensaiar, repetir todas as palavras, gestos, e esperar pela volta do grande astro que, entretanto, voltara a ser vencido por uma nuvem. Na verdade, o anúncio terá que ser gravado nesta manhã de inverno, em que o Sol espreita e foge. E nós continuaremos à espera…

INFORMATION/ INFORMACIÓN/ INFORMAZIONI
ENGLISH – The Big Bull Fight - one of my stories about my artistic life, this time filming a commercial for television, in the arena, with a raging bull.

FRANÇAIS – La Grande Corrida - une de mes histoires sur ma vie artistique, cette fois sur le tournage d’une publicité pour la télévision, dans l'arène, avec un taureau furieux.

ESPAÑOL – La Gran Corrida - una de mis historias acerca de mi vida artística, esta vez sobre el rodaje de un anuncio para la televisón, en la arena, con un toro furioso.

ITALIANO – La Grande Corrida - una delle mie storie sulla mia vita artistica, questa volta circa le riprese di una pubblicità per la televisione, nell’arena, con un toro furioso.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Letras - Isabel Ferreira


Fonte: Google - http://umacertaangola.blogspot.com/
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ISABEL FERREIRA é sobretudo escritora (poesia e contos) e conferencista. Digo sobretudo, pois esta autora multifacetada tem também uma veia artística, responsável pelo seu envolvimento no mundo do espetáculo, no passado. Nasceu em Luanda, Angola, a 24 de Maio de 1958.

É uma mulher do mundo, pois vive entre a sua cidade natal, o Rio de Janeiro, Montreal e Lisboa, para além de uma agenda cheia de conferências que a levam a viajar pelo México, Canadá e outras cidades do Brasil na divulgação da literatura angolana.

É uma autêntica guerreira que desde cedo aprendeu a batalhar sem nunca se deixar vencer pelas vicissitudes da vida, desde a infância, à adolescência vivida em plena guerra civil. O sofrimento por que passou não foi uma barreira à sua evolução como ser humano, pelo contrário, transformou-se num desafio que a levou a vencer grandes obstáculos.

Licenciada em Direito, exerceu advocacia no Lubango, sul de Angola, tendo antes lecionado em Luanda e experimentado o ensino de deficientes mentais, experiência que terá certamente enriquecido a autora sob um prisma diferente. Apaixonada pela arte da representação apostou no Curso de Dramaturgia na Escola Superior de Teatro e Cinema, na Amadora, em Portugal, mas foi o mundo da escrita que mais a seduziu.

Nas suas obras, Isabel Ferreira retrata a cultura da sua gente, o seu tradicionalismo, e as contradições nascidas dos sentimentos de um povo otimista apanhado pela guerra e as suas consequências.

O seu primeiro livro de poemas foi lançado em 1995, mas foi o segundo trabalho de poesia que começou a despertar atenções, tendo merecido a consideração de alguns vultos da escrita angolana, como Tranjano Nankova, que escreveu o prefácio da obra.

‘Fernando D’Aqui’ (2005), seu primeiro conto, lançado na Academia Brasileira de Letras, foi prefaciado pelo reputado escritor português Urbano Tavares Rodrigues e tem sido reconhecido não só no Brasil como em Portugal e nos PALOPs.

Em 2007, ‘À Margem das Palavras Nuas’ foi um êxito que fez esgotar prateleiras.

‘O Guardador de Memórias’ (2008), lançado em Luanda, encontra-se publicado no mercado internacional literário, nomeadamente nos EUA, Canadá e Portugal.

As suas obras constam de diversas antologias.

Livros de Isabel Ferreira

LAÇOS DE AMOR
 CAMINHOS LEDOS
 NIRVANA
 À MARGEM DAS PALAVRAS NUAS
 FERNANDO D`AQUI
O GUARDADOR DE MEMÓRIAS

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INFORMATION/ INFORMACIÓN/ INFORMAZIONI.
Google
http://www.izabellferreira.com/perfil.htm
pt.wikipédia.org/wiki/Isabel-Ferreira


ENGLISH - Poet and writer (short stories). She was born on 24 May 1958, in Luanda (Angola/ Africa). Her books are published in the international book market.

FRANÇAIS - Elle est l’auteur de livres de poésie et des contes, est née le 24 Mai 1958 à Luanda, Angola (Africa). Ses livres sont publiés dans le marché international.

ESPAÑOL - Autora de libros de poesía y cuentos, nació el 24 de Mayo de 1958 en Luanda, Angola (África). Sus libros se publican en el mercado literario internacional.


ITALIANO - Scrittrice di poesie e racconti, nacque a Luanda, Angola (África), il 24 Mag 1958. I suoi libri sono venduti sul mercato internazionale letterario.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Um Homem Importante

Por: Maria Dhramamor

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SOLILÓQUIO

Alcoólatra inveterado. Fiel amante da boémia. Eu! O que se extingue nas brumas impercetíveis da inconsciência, como um animal ferido numa contenda sanguinária contra um inimigo oculto indomável.

Nem tu, Noémia, minha querida, que me acolhes no teu colo macio, nem tu sabes Noémia, dos meus fantasmas. Nem tu, mãe, que me protegeste no teu ventre morno e húmido, nem tu, pai, que estando tão perto, nunca me conheceste. Só eu sei dos meus fantasmas, mas todos sabem das minhas bebedeiras, aí, ao fundo, na tasca mais rasca da Baixa, abraçado às prostitutas mais ternas da Praça da Figueira. Todos me ouvem chegar já alta a madrugada, sustendo penosamente o corpo nas pernas trémulas, a cantar excertos de um fado cuja letra nunca aprendi.

E todos gritam, ‘vai-te embora ó desgraçado!’, até tu, Noémia, minha querida de colo macio, até tu me gritas! São vocês os que me atiram correntes para os pés e me arrastam pelos bordéis mais degradantes da cidade. Mas tu, Ana, dos grandes olhos negros e tristes, ouves o meu grito e eu aproveito para explodir. Solta-se-me a raiva e choro. Aquela criança, Ana, que eu vi morrer numa mina; aquela aldeia que devastei a rir como um desalmado –, era a vitória, Ana, a vitória que me deu medalhas e honrarias e que me roubou Isabel, a minha primeira namorada, a minha única namorada. Só tu sabes, Ana, minha menina dos olhos tristes, filha dos prostíbulos mais sórdidos desta cidade moribunda. Só tu sabes, abraça-me com força, esmaga a minha alma, os meus pecados. Amar-te-ei à distância porque não te mereço.

Mandas-me embora, implorante, é o desvelo que te obriga a apartares-te de mim. Vou precisar dos teus afagos antes de adormecer, porque terei medo. Eles virão para me julgar. Virão amordaçar-me o coração e fazer-me sangrar até à exaustão e eu gritarei mais uma vez, maldita a guerra que nunca foi minha e mais uma vez tentarei escapar-me com o olhar alucinado, bendita a morte Ana, só tu sabes como é bendita a morte porque todos, todos voltarão a delatar a minha demência e até Noémia, a minha querida de colo macio irá apontar-me o seu dedo longo «seu esquizofrénico, vou abandonar-te», enquanto aguardo ansioso pelo alvorecer, mergulhado na minha insanidade. Ah… sussurrarei então poemas de Pessoa e de Neruda a Isabel, o meu primeiro amor. ‘Eis o abandonado’. Eu. Apenas tu, Ana, filha do infortúnio, apenas tu me entendes.

Impressiona-me o perfeito ator que sou, o protótipo do homem feliz e bem parecido. O sorriso personificado nas manhãs frescas. Enquanto os meus juízes tentam perscrutar-me o âmago com olhares mordazes, sorrio. Sabem das minhas noites de boémia, notam-no nos meus olhos raiados de sangue, nos meus lábios entumescidos pelo álcool.

Estou em palco, minha hipocrisia é meu timbre, meu triunfo!

Alberto, João, Alzira, pouco importa quantos mais serão os propagadores da minha realidade distorcida. Tu, Alzira, elogias a minha gravata, tu, João, o meu fato lustroso, o meu gosto irrepreensível e tu, Alberto, a minha exímia acuidade. Sorrio sempre, bom dia, meus amigos, lindo dia! Sou a entidade máxima nesta empresa, o proprietário, o amo e senhor, e sou eu quem dita as regras! É isso que me faz sorrir –, a diferença entre o miserável que sou quando a noite cai, e o deus em que me transformo quando a manhã desponta. Sou, na verdade, um ator brilhante.

M.D.

Information/ Información/ Informazione

ENGLISH - An Important Man (written by Maria Dhramamor) - Monologue of a successful man living a psychological hell, plunged into alcoholism, from his past as a soldier in the portuguese colonial war.
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FRANÇAIS - Un Homme Important (écrit par Maria Dhramamor) - Monologue d'un homme qui a du succès, mais il vit un enfer psychologique, imbibé d'alcool, de son passé comme soldat dans la guerre coloniale portugaise.
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ESPAÑOL - Un Hombre Importante (escrito por Maria Dhramamor) - Monólogo de un hombre de éxito que vive un infierno psicológico, ahogado en alcohol, de su pasado como soldado en la guerra colonial portuguesa.
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ITALIANO - Un Uomo Importante (scritto da Maria Dhramamor) - Monologo di un uomo di successo che vive un inferno psicologico, imbevuto di alcol, dal suo passato di soldato nella guerra coloniale in Africa.