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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A GRANDE TOURADA

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Por: Maria Dhramamor
Proscénio de (des)venturas IV - Vivências no Palco e suas consequências

Ano de 1998, de um dia qualquer… O anúncio terá que ser gravado nesta manhã de inverno em que o Sol espreita e foge. É um anúncio festivo, de verão, de gente feliz, portanto, é imperioso que o glorioso astro nos brinde com o seu brilho. De outra forma, não haverá gravações.

Este lugar parece-me uma imensa bola de sabão, cheia de mariposas estonteantes, pronta a desintegrar-se no espaço. Não é um lugar comum. É uma praça de touros fedorenta e fria, onde as escadas húmidas da geada congelam qualquer traseiro, incluindo os mais anafados. Estamos sentados nos degraus gelados, simplesmente à espera; o absurdo da espera… ‘À Espera de Godot’ ... (Samuel Beckett).

Gosto de contemplar o mundo que me rodeia, gosto de guardar para mim os mais ínfimos pormenores da vida. Que mais poderia fazer, senão observar, naquele momento de impassibilidade?

Entretenho-me a caricaturar as personagens arlequinadas de rostos arroxeados pelo frio e vestes garridas; sou mais uma, entre essas excêntricas criaturas inventadas à pressa; mais uma a viver estranhos momentos à sua própria vida. Apercebo-me de algumas conversas que poderiam ser tema para uma tragicomédia de sucesso, como por exemplo, a mulher opulenta que se gaba de ter enterrado três maridos, ou do casal de velhotes impudicos que, entre beijos ruidosos, falam dos tempos em que a fornalha da paixão era o fulcro das suas agora decrépitas vidas. Ah, mas a mocinha de azul prende-me a atenção pelo seu olhar cândido, envolta no fulgor de quem aguarda o momento crucial da sua lacónica existência. A diva decadente também lá está, com um vislumbre de beleza na frouxa luz do olhar, de sorriso ensombrado pela ausência de dentes.

Todos me parecem figuras de um circo gigantesco flutuando dentro de uma descomunal bola de sabão. E eu? Eu não passo de uma dessas figuras, enredada dentro do grande circo.

Uma versão adulterada de Al Capone vem despertar-me do torpor em que me encontro. Espreito-lhe o rosto caraterizado, o chapéu, a gravata amarela às riscas e o lencinho amarelo gema-de-ovo enfiado no bolso do casaco, em contraste com o fato esverdeado e paro abismada. E, claro, o charuto na mão… Observo aquela ímpia figura gangsteriana e não me impeço de fazer um descarado comentário à sua gravata; e ele retribui com uma observação acalorada à minha figura. É que, tal como o resto dos participantes, tenho uma aparência, no mínimo, estrambólica. Fala-me da sua vida agitada de produtor, que numa emergência se mistura com atores e figurantes para preencher uma vaga (o ator estava doente); e fala-me do cãozinho que deixara em casa com a pata quebrada, e fala-me, entretanto, de episódios felizes. E convida-me para ser o seu par, não via eu que quase todos formavam um casal? Faríamos uma contracena em grande plano… Ah, bom?! E a menina dos olhos cândidos? Não estava ela só? Uma das poucas exceções… - diz-me.

O Sol vence a nuvem e raios brilhantes surgem no seu esplendor. A produção alegra-se e nós, os desesperados, observamos a sua súbita alegria. Entra o touro, ouvem-se assobios. Ao fundo, está um célebre toureiro vestido a preceito, de farpela rosa coberta de arabescos e brilhos e de capa vermelha na mão. É a figura fundamental do ato, contratado para fazer publicidade a pastilhas milagrosas para a gripe. Tosse, espirra, pigarreia e avança bamboleando o corpo esguio em direção ao touro, pois, com as ditas pastilhas que acaba de ostentar, não há doença, nem touro, nada que o vença! Alguém levanta um cartaz com as palavras a entoar e indica-nos quando deveremos gritar o habitual ‘olé’; e preparamo-nos para o ensaio. O bicho parece aturdido mas, repentinamente, vira-se na direção dos equipamentos da filmagem como uma estrela exaltada e avança derrubando um tripé com uma máquina fotográfica; entretanto, o cameraman consegue salvar a sua câmara, mas o resto da equipa tenta é salvar a pele. Tal como os outros, pulo uma cerca e trepo pela bancada acima, numa velocidade que nunca imaginei atingir. O animal dá marradas em tudo e o toureiro perde o seu encanto, fugindo no meio da debandada. Al Capone tenta proteger-me, mas acaba por dar à sola à minha frente.

O Sol volta a esconder-se. Os funcionários da arena perseguem o touro e conseguem enfiá-lo numa das portadas e isolá-lo. Há que montar todo o cenário de novo, voltar a ensaiar, repetir todas as palavras, gestos, e esperar pela volta do grande astro que, entretanto, voltara a ser vencido por uma nuvem. Na verdade, o anúncio terá que ser gravado nesta manhã de inverno, em que o Sol espreita e foge. E nós continuaremos à espera…

INFORMATION/ INFORMACIÓN/ INFORMAZIONI
ENGLISH – The Big Bull Fight - one of my stories about my artistic life, this time filming a commercial for television, in the arena, with a raging bull.

FRANÇAIS – La Grande Corrida - une de mes histoires sur ma vie artistique, cette fois sur le tournage d’une publicité pour la télévision, dans l'arène, avec un taureau furieux.

ESPAÑOL – La Gran Corrida - una de mis historias acerca de mi vida artística, esta vez sobre el rodaje de un anuncio para la televisón, en la arena, con un toro furioso.

ITALIANO – La Grande Corrida - una delle mie storie sulla mia vita artistica, questa volta circa le riprese di una pubblicità per la televisione, nell’arena, con un toro furioso.

1 comentário:

Gabrielle disse...

Para mim é sempre um grande prazer (re)ler-te.
beijinhos amiga