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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Memórias - Janis Joplin

Fonte: Youtube

Janis Joplin - (USA 1943-1970)

Ainda te amo Janis Joplin

Lembro-me de ti como a rapariga que abalou o mundo com a sua voz roubada ao Harlem. A 'pérola branca dos blues', como te chamavam. Quando te oiço, a minha vida muda por instantes. És como um mar que vaza dentro de mim fluindo sem controle, assombrosa nostalgia que arrasta a minha alma para além da intemporalidade e adormece o meu corpo até me perder. Só a minha memória permanece inteira descobrindo velhos amores, mesmo aqueles de cujo rosto nem me lembro - foram alguns, fruto da minha insconstância - diluem-se as mágoas, sobra uma terna saudade daquilo que não vivi, o lado lírico que me salvou vezes sem conta de buscar a morte. 'Summertime', 'Get it While you Can', 'Me and Bobyy McGee', 'Maybe' e tantas outras. Ah, mas 'Mercedes Benz'!

Tinha 11 anos e, com as minhas amigas, apregoava esta canção que nos embriagava de contentamento, enquanto as nossas vozes desafinadas atravessavam o tempo, onde quer que estivéssemos: no pátio do Liceu, no balneário do ginásio, na paragem do autocarro, na esplanada da gelataria Veneza, na Colina da Saudade, que se elevava no alto da minha cidade, o Lobito, onde as borboletas dançavam em todo o lugar e o arco íris se estendia em direção a nós.

Eu queria ser como tu, proíbida, mal-afamada, bem-afamada, e bem mal afamada! Porque eras a rapariga que quebrava o tempo em pedacinhos e transformava a minha pequena alma, por vezes tão triste, em pássaro gigante, ágil e único. Eu conhecia o teu paraíso, mas desconhecia o teu inferno.

Depois apareceste por aí, a cantar com um rapaz que, tal como tu, se eternizou na vida, um excêntrico rapaz afro americano (na altura, negro...), chamado Jimi Hendrix, que tocava guitarra com os dentes, estendido no palco, dedilhando até se ouvir um 'thank you' e, por vezes, queimava impiedosamente as malfadadas guitarras num gesto de rebeldia que enlouquecia multidões. Os jornais diziam que andavas enrolada com ele e que ambos eram uma péssima influência para a juventude; que os pais prendessem os seus filhos em casa enquanto vocês dois andassem por aí. Atacaram-te ferozmente, numa época em que o racismo americano fluia como as águas do Niagara, dominando com a sua fúria mentes de todas as cores. E quando os Black Power andavam por aí, de punho erguido, ostentando o seu orgulho Negro ao mundo.

Eras inatingível e muito menos te deixavas influenciar por loucuras massivas. Tu eras a tua própria loucura. Andavas nua e descalça se te apetecia, as tuas roupas extravagantes de hippie eram motivo para seres marginalizada, as tuas canções a beirar as vozes negras eram um chicote na moral de muitos, o teu desleixo, por vezes, e pior ainda, proclamares a todos os ventos e marés que não te preocupavas com a cor da pele e que eras adepta do sexo livre. Sorry, mas tal afirmação valia-te mais uns pontos no ranking das mal-afamadas.

Eu sei que querias apenas viver a vida à tua maneira. E conseguiste, de certa forma. E foste raínha de palcos diversos e a tua voz sem medo descobriu sons que só a tua garganta deixava escapar. Conquistaste o mundo e deixas-te-o perder - droga, álcool, brigas, prisão, obscenidades em palco, relações condenáveis, desespero, angústia, e o fim. O fim...

Why? How could you? Como pudeste J.J.? Tinhas o mundo a girar na palma da tua mão, mas este era demasiado pequeno para ti (meia casquinha de noz) e tu querias o universo inteiro com os seus outros mundos desconhecidos. Li, não me recordo aonde, nem quando, que tinhas ficado arrasada com a morte de Jimi Hendrix, uns dias antes - terá sido a saudade ou a tua solidão, a tua inimiga mortal?

Psst! Confesso-te que, na altura, não queria um Mercedes Benz, nem uma TV a cores porque, em casa, o dinheiro mal chegava para comer e não existiam sequer televisões em Angola, 'medos do colonialismo', por certo... Pouco importava, eu alimentava o sonho utópico de querer cantar como tu e fazer sonhar gerações. Porém, hoje, eu quero apenas ouvir-te...

Por vezes, chamas-me. Estou aqui. Because I still Love You.

Maria Dhramamor

2 comentários:

Larissa disse...

Olá Maria, não conhecia esta cantora. É fabulosa. Obrigada.

Anónimo disse...

Boa noite Maria, vc me emocionou, palavras tão bem colocadas e com tanto sentimento, Janis é mesmo tudo isto, e vc o expressou muitíssimo bem.
Parabéns .....