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F. CRISTAL - O Livro


FRAGMENTOS DE CRISTAL

É o título do meu livro a ser publicado brevemente pela FREITAS BASTOS, (www.freitasbastos.com.br) editora radicada no Brasil, Rio de Janeiro, desde 1917. Será uma edição eBook, lançada em parceria com a GATO SABIDO, (www.gatosabido.com.br), editora especializada em publicações virtuais.

Como nasceu esta ideia?
Em 1986 costumava frequentar o refeitório de um partido político, em Lisboa, junto ao meu local de trabalho, para comer sopa de feijão, uma vez que o meu baixo orçamento não me permitia almoçar diariamente uma refeição digna. Reparei num tipo gadelhudo e com uma estranha coloração cutânea, tipo alaranjada, que gritava por uma sopa de chocolate. Achei piada, virei-me para ele e sorri. Retribuiu com um sorriso do tamanho do sol. Entabulámos uma conversa banal do tipo ‘que chatice, chove outra vez!’ e, dias depois, comíamos de novo a nossa sopa de chocolate, lado a lado, ao balcão.

Com o passar dos meses, estabeleceu-se uma subtil amizade e caminhávamos pela Avenida da Liberdade falando de factos simples da vida, tais como, a proliferação dos pombos, o trânsito infernal, a guerra dos partidos, a exploração do trabalhador, enfim… Nunca lhe perguntara o que fazia, pois bastava-me o seu sentido de humor, por vezes acutilante, que me alegrava naqueles momentos de lazer, antes de voltar ao trabalho.

Um dia, deixou de aparecer no refeitório e a empregada do balcão disse-me, ao jeito de bisbilhoteira diplomada, que o meu amigo era um pintor conceituado (mostrou-me os vários quadros pintados por ele e expostos nas salas) mas... ‘coitado!’ um boémio, amante de noitadas, mulheres de mau porte, ensopando-se em álcool como uma esponja desgastada.

Pouco tempo depois encontrei-o à noite, deitado num banco de jardim, na Avenida da Liberdade. Estava completamente ébrio e falava com a voz entaramelada, tipo bd, bd, bd… — Chamei-o várias vezes, ele abriu um olho, observou-me como se eu fosse uma figura extraterrestre e, com um ar alucinado, afirmou desconhecer o indivíduo em questão, o que me levou a concluir que o meu amigo nem se lembrava do seu próprio nome. Fiquei atónita.

No dia seguinte lá estava ele, com a mesma postura de sempre, a pedir sopa de chocolate. Falei-lhe no nosso encontro e a sua memória parecia ter sido apagada, pois não fazia ideia do que se passara na noite anterior.
Até que soube, pela animada empregada do refeitório, que o pintor aparecera morto num banco de jardim, na Avenida da Liberdade, com hipotermia e a deitar uma baba viscosa pela boca. Era inverno, e ele não aguentara o frio da noite, nem o excesso da bebida, e muito menos o peso da vida. Isto fez-me pensar profundamente na fragilidade do ser humano.

Anos depois, vivia num quartinho, em Arroios, quando me apercebi de um indivíduo aperaltado de fato e gravata que rondava o quarteirão, de forma inquietante. Até que o vi surgir de calças de ganga e t-shirt, arrastando um colchão, e instalar-se debaixo do toldo amarelo do café em frente.
Entretanto, a roupa tornara-se encardida, enquanto o cabelo e a barba cresciam numa metamorfose chocante. A figura urbana e outrora agradável transformara-se num farrapo humano, que passava os dias deitado no colchão sebento, numa letargia comovedora, dissociando-se completamente do homem que eu vira brilhar no seu fato clássico. Perdera o seu lugar na comunidade e passara a ser uma criatura desprezível, ignorada e sem passado.


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Estes dois episódios fizeram-me pensar em como a nossa sociedade gera estereótipos à volta de imagens e comportamentos que não correspondem aos convencionalismos, produzindo vítimas incontáveis, entre outras, os sem-abrigo, pedintes, vadios, mendigos, vagabundos, indigentes, mendicantes, seja lá o que for que lhes chamemos, esquecendo-nos que estes não são apenas um número no planeta que habitamos, mas seres humanos com um passado e vida própria, apesar de imprópria para nós, os ditos normais.
Esta história é uma chamada de atenção pela indiferença ou crueldade com que julgamos e tratamos os nossos semelhantes, os tais que se perderam na vida.
Por vezes, somos como o cristal que, quando se quebra, é irreparável. Fragmentamo-nos e perdemo-nos para sempre nas memórias do tempo, vivendo uma vida intemporal, até que a morte nos acolha. Outras vezes, depois de batermos no fundo do poço, levamos um impulso que nos arremessa para cima, em direcção à luz, renovando as nossas energias. Estamos então prontos para um recomeço, dando assim continuidade à nossa existência e fazendo de nós próprios sobreviventes.

MD.

2 comentários:

deusadeluz disse...

Que prazer imenso Reencontrar-te..! Obrigada por continuares a seguir o teu coração, nos teus passos de bailarina encorajas-nos a ouvir o som da nossa alma!

Um beijo grande e muito sucesso para o teu novo livro, tu mereces!

Sandra de Oliveira

MD disse...

Querida Amiga, um reencontro com alguém como tu é como um banho de Sol na alma. Somos ambas bailarinas incansáveis. Obrigada pela tua linda mensagem!