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F. CRISTAL - Sinopse/ Excertos

SINOPSE

LISBOA, décadas de 60 e 70. Época da Ditadura.
Numa tarde de Inverno, um mendigo (Eurico), discursa junto ao cais do Sodré. Fala de uma nova Era, dos ciclos da vida, da globalização das ideias, do amor, da universalidade da alma. A polícia prende-o como insurrecto. Na prisão, conhece Sócrates, comunista perseguido pela PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado), pelas suas actividades. Iniciam uma estranha amizade onde se confrontam com as suas próprias realidades, em mundos totalmente opostos.
Apanhados pela Revolução de Abril de 1974, ambos são libertados.
Após um período de aparente estabilidade, Eurico volta às ruas na obstinada procura de Ondina, a enigmática mulher que o condenara à loucura com os seus sentimentos extremos, a sua singular forma de viver, os seus indecorosos amigos, amantes, a sua espiritualidade e a sua sexualidade delirante.
Eurico morre na rua, de fome, sede e frio, agarrado ao seu conturbado passado.

EXCERTOS
Eurico
“O homem atinge-me o rosto, projectando a sua ira com a ponta do reluzente sapato, e uma névoa cobre-me o olhar. Arrasto-me e tento levantar-me, apoiado às suas pernas fortes e arqueadas. Empurra-me de novo com o seu sapato lustroso e eu rolo para longe. Mas ele segue-me, inclina-se sobre o meu ouvido e exala sobre mim um arrepiante hálito morno.
– Cão fedorento! – grita. – Levanta-te!”.

“Eu sou Orpheu e seguir-te-ei com a minha lira até às profundezas do Hades, desafiarei a morte, enfrentarei Plutão e passarei indiferente por Cerbero o guardião assassino, para te buscar nas negras cavernas da morte”.

Ondina
“Guilherme era impetuoso, agressivo, debochado, enchia-lhe os ouvidos com palavras lascivas, que ela ouvia quieta e húmida. Dava-lhe vontade de chorar, mas não chorava. Dava-lhe vontade de amar e não amava. Era a fornicação que a movia para cima das colchas das camas dos motéis, que eles não se davam ao trabalho de ajeitar. Deixavam-nas sujas, amarrotadas, a cheirar a corpos suados. Pouco falavam um com o outro, a não ser ele com a sua impudência e ela a responder com sins desavergonhados, sempre aberta e molhada, excitada por essa flagelação verbal. Uma espécie de expiação pela sua sobrevivência, uma espécie de xadrez onde ela jogava com todas as peças até ao xeque-mate”.

Laura
“Aparentava um envolvente coquetismo e uma refinada inteligência que a distinguia da maioria das mulheres. Enquanto espalhava o seu charme, o novo marido observava-a pelos cantos da galeria, inchado de orgulho. Achava-se responsável pela nova mulher que era Laura".

"[...] desde quando é que aquela cabecinha encarapinhada seria dotada de suficiente inteligência para se tornar um médico? Uma questão cultural – pensou – os negros não estavam talhados para a intelectualidade. Excluía-se um ou outro, como Martin Luther King, o Nelson Mandela, mas, na opinião dela, eram mais anarquistas do que outra coisa, embora reconhecesse que de analfabetos não tinham nada. Mas não fora à toa que um acabara condenado à prisão perpétua e o outro assassinado. Enfim! Pensando nisso, Laura limitou-se a olhar para o miúdo com um sorriso complacente”.

Sócrates
“Olha para África –, para os corpos mutilados dos guardiões da Pátria, que chegam constantemente, escondidos em sacos, em pedaços putrefactos por causa das mentes podres dos que participam e escondem esta realidade. É por isso que luto, para que o meu filho não me seja um dia entregue aos bocados; para que os meus amigos não desapareçam em prisões por causa de uma frase... pela liberdade, percebes? E estes gajos não entendem que acabou. Esta guerra não nos leva a nada, nada... Percebes?”.

“Desconhece como estará Laura depois da Revolução, cuja ideia sempre abominara. O coronel estará provavelmente no seu leito a morrer de indignação, enquanto Laura andará certamente a rastejar o seu nacionalismo pelas ruas da amargura, soltando chispas ao Zé Povinho, aos jornais, aos ecrãs televisivos e a tudo que a lembre o novo rosto da Nação. Sócrates pressagia o tipo de encontro que será: a política, os filhos e os sentimentos ambíguos de ambos numa amálgama vomitiva”.